Aproveito a Copa do Brasil cheia de duelos estaduais para lembrar que em clássico não se poupa

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Em todo lugar do mundo, clássico é um jogo especial, é um duelo diferenciado que mexe demais com os torcedores, é um confronto lembrado por décadas às vezes, é motivo de piada e provocação no trabalho, na escola, na faculdade, no bar, na rua, na praia, nas mídias sociais etc. A vitória vale muito mais do que os três pontos, e a derrota dói mais do que um tropeço comum. Todo mundo sabe isso tudo que eu escrevi, mas parece que alguns profissionais do futebol relativizam isso ou pouco ligam para isso.

Rogério Ceni não garantiu força máxima contra o Palmeiras nesta quinta-feira pela Copa do Brasil porque tem jogo no domingo pelo Brasileiro contra o Juventude. O treinador são-paulino transferiu para a diretoria a responsabilidade de “arriscar tudo” contra o rival alviverde no meio da semana. Se eu fosse diretor, eu mandaria Rogério fazer o possível e o impossível para vencer o time que bateu no São Paulo, com requintes de crueldade, na final do Campeonato Paulista e na última segunda-feira no Morumbi pelo Brasileiro. Mas e se alguém se machucar ou se cansar nesta quinta-feira? Paciência, faz parte do futebol e do esporte. Mas e o duelo contra o Juventude no fim de semana, duelo em casa contra time da zona do rebaixamento? Importa muito menos para o torcedor são-paulino do que qualquer Choque-Rei. Quero acreditar que Rogério apenas se perdeu nas palavras após levar a virada no Morumbi na última segunda. Por mais que ele priorize o Campeonato Brasileiro, não é possível que ele não tenha a exata noção do valor do clássico para os tricolores.

         

    


Eu critiquei Crespo quando ele poupou jogadores contra o Corinthians em Itaquera no Paulista do ano passado. Na ocasião, ele priorizou o confronto contra o Racing na fase de grupos da Conmebol Libertadores e desperdiçou grande chance de quebrar o tabu são-paulino no estádio corintiano. O Timão de Vagner Mancini estava muito enfraquecido, e seu treinador acabou caindo pouco depois. O São Paulo, posteriormente, usou reservas nos três últimos jogos da fase de grupos da Libertadores, conseguiu a classificação sem muito problema e eliminou o próprio Racing nas oitavas. Como Crespo ganhou o Paulista e tirou o São Paulo da fila, muitos entenderam que ele fez o certo em poupar naquele clássico. Mas vai falar isso para a Independente e para outros milhões de são-paulinos que não aguentam mais jogar em Itaquera e não vencer. Dava tranquilamente para dar o máximo contra o Corinthians, avançar na Libertadores e ainda conquistar aquele Estadual.  

 O mesmo raciocínio vale para Abel Ferreira. Eu fui um dos poucos que o criticaram por ter colocado time reserva contra o São Paulo na reta final do Brasileiro do ano passado. Era um jogo no Allianz Parque lotado com cara de despedida do time antes da final da Libertadores, e havia ainda outros dois confrontos depois antes da decisão continental contra o Flamengo. O plano do Abel foi usar reservas em casa em um clássico e levar o time principal no fim de semana para enfrentar o Fortaleza no Nordeste. Como o Palmeiras conquistou o bicampeonato da Libertadores (venceu na prorrogação com falha de Andreas Pereira, e poderia ter perdido no tempo normal se Michael não falhasse em uma finalização no fim da partida), as escolhas de Abel foram elogiadas. Só que o Flamengo também poupou titulares contra o Corinthians na semana anterior à final e perdeu a decisão da Libertadores.

O resultadismo coroou o plano do Abel de usar reservas contra o ameaçado Tricolor. O estrategista português e seu time tiveram a rara e histórica chance de rebaixar praticamente o São Paulo para a segunda divisão, porém entenderam que isso não teria muita importância. Por mais que todos os palmeirenses amem, com razão, seu treinador, alguns que eu conheço não concordaram com essa “ajuda” que ele deu para um rival. E esses também têm razão, a meu ver. Ganhar a Libertadores é mais importante do que rebaixar um rival, mas dava, sim, para ter os dois prazeres. O Palmeiras tem levado boa vantagem sobre o São Paulo desde 2015, sobretudo nos jogos no Allianz Parque. Em quase todos os triunfos alviverdes no Choque-Rei, os palmeirenses lembram da frase desastrada de Carlos Miguel Aidar, ex-presidente tricolor que, em meio às bananas que comia, falava do “apequenamento” do Palmeiras. Rebaixar o São Paulo seria uma excelente resposta para essa tolice dita com soberba pelo cartola são-paulino.

Outro técnico português chegou ao Brasil e poupou logo de cara em clássico. Vítor Pereira, comandante do Corinthians, teve a coragem de tirar o pé em um Derby. O Palmeiras, que já era favorito, venceu o mais tradicional clássico paulista com autoridade. Cobrado pela decisão de usar alguns reservas contra o maior rival, Vítor se defendeu dizendo que sabe o que é um clássico porque participou de vários. Ele de fato treinou até o Fenerbahçe, mas será que na Turquia a torcida de seu time aprovaria formação reserva contra o Galatasaray? Duvido muito, mesmo que tivesse depois uma partida por torneio internacional. A desculpa de Vítor Pereira para entrar sem força máxima diante do Palmeiras foi um duelo da fase de grupos contra o Boca Juniors pela Libertadores. Não dava para usar força máxima nos dois jogos? Quando tem Real Madrid x Barcelona antes de rodada da Champions League os dois gigantes espanhóis usam reservas? Claro que não! O Rangers se matou para ir à final da Europa League na última temporada, mas sem aliviar jamais para o Celtic.

Citei três casos de treinadores estrangeiros que pouparam em clássicos paulistas nos últimos tempos. Alguém pode dizer que eles não conheciam bem as nossas rivalidades locais, outros podem afirmar que eles são bons demais e têm planos melhores do que os técnicos brasileiros. O fato é que vem agora Rogério Ceni, à frente do seu amado São Paulo e preocupado com o calendário, dando mostras que pensa mais no Juventude em mais uma rodada do Brasileiro do que em um mata-mata contra o Palmeiras no único torneio importante que ele e seu clube jamais venceram. Quanto vale financeiramente chegar às quartas de final da Copa do Brasil? Certamente mais do que o São Paulo vai lucrar na partida contra o Juventude. Muito mais que isso, quanto vale para o são-paulino não ser humilhado de novo pelo Palmeiras e talvez, quem sabe, ter o gostinho de eliminar o badalado rival que é o melhor da América atualmente? Há coisas que não têm preço. Clássicos são assim, valem muito mais do que aparentam.

Rogério Ceni, técnico do São Paulo, está na dúvida se arrisca tudo no clássico contra o Palmeiras, que já poupou contra o rival tricolor e o ajudou a não ser rebaixado
Rogério Ceni, técnico do São Paulo, está na dúvida se arrisca tudo no clássico contra o Palmeiras, que já poupou contra o rival tricolor e o ajudou a não ser rebaixado Gazeta Press

 

As oitavas de final da Copa do Brasil apresentam, além de São Paulo x Palmeiras, outros vários clássicos estaduais: Atlético-GO x Goiás, Fortaleza x Ceará e Corinthians x Santos. Imagino que ninguém vai tirar o pé nesses confrontos, e o mesmo vale para Atlético-MG x Flamengo, um dos maiores clássicos interestaduais do país. Perder de rival acontece e torcedores até entendem isso devido às situações e às fases de um e de outro, mas beira mesmo o incompreensível não dar o máximo em duelos tão significativos. Aliás, até mesmo em uma goleada sobre o rival, é possível lamentar quando a equipe tira o pé e não faz mais gols, não faz ainda mais história, não humilha ainda mais o adversário. Espero não ter que fazer outro post sobre esse tema. Sinto que estou escrevendo o óbvio ao afirmar que em clássico não se poupa.

 

 

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Copa do Qatar não abre tanto espaço para técnicos estrangeiros e mostra soluções caseiras

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

O clima da Copa do Mundo esquenta após uma gorda Data Fifa com muitos jogos da Nations League e com a definição dos últimos classificados para o torneio no Qatar. E, com todos os países já definidos na disputa, é possível fazer algumas análises e reflexões mais específicas. No que se refere a treinadores, vemos 22 dos 32 times com profissionais do próprio país, incluindo a imensa maioria dos favoritos ao título: Alemanha (Hansi Flick), Argentina (Lionel Scaloni), Brasil (Tite), Espanha (Luis Enrique), França (Deschamps), Holanda (Van Gaal), Inglaterra (Southgate) e Portugal (Fernando Santos). Uma exceção é a Bélgica, que tem o espanhol Roberto Martínez como treinador em outro Mundial.

As seleções de mais tradição no futebol costumam valorizar suas escolas e relutam mais em contratar técnicos estrangeiros. Todos os países campeões mundiais vão para o Qatar com treinadores locais (o Uruguai trocou o Maestro Óscar Tabárez por Diego Alonso), exceção feita à Itália, que não se classificou mais uma vez. Reconhecida como uma das pátrias da prancheta, a Itália não terá nenhum treinador na Copa do Qatar. As nacionalidades com mais de um treinador no primeiro Mundial disputado no Oriente Médio: argentinos e espanhóis (três), croatas, franceses e portugueses (dois). O Brasil, que discute com mais seriedade a possibilidade de ter um treinador estrangeiro a partir de 2023, possui apenas Tite como representante da prancheta nesta Copa.

Hans-Dieter Flick, Lionel Scaloni, Tite, Luis Enrique e Louis van Gaal
Hans-Dieter Flick, Lionel Scaloni, Tite, Luis Enrique e Louis van Gaal Matthias Hangst/Getty Images | Getty Ima

As seleções africanas, tão acostumadas a contar com técnicos europeus e sul-americanos, estão acreditando mais em seus próprios treinadores. Aliou Cissé (Senegal), Jalel Kadri (Tunísia), Otto Addo (Gana) e Rigobert Song (Camarões) estão à frente de seus países. Apenas o veterano bósnio Vahid Halilhodzic leva sua bagagem internacional para uma seleção africana (comanda agora o Marrocos). Mas é bom lembrar que o treinador europeu de 69 anos já foi demitido de Costa do Marfim e do Japão pouco antes de uma Copa do Mundo. Alguns interinos estão ficando no comando de suas seleções, fato que vemos na Tunísia e no País de Gales (Giggs ainda é oficialmente o treinador, porém, como ele enfrenta um problema judicial, Rob Page tem dirigido a equipe). O próprio Scaloni foi ficando na Argentina e está com a maior sequência invicta dentre as seleções da atualidade: 33 jogos.     

O argentino Tata Martino corre perigo no México, onde seu trabalho vem sendo questionado. No caso de uma demissão, os mexicanos poderiam optar por uma solução caseira, o que diminuiria ainda mais o número de treinadores estrangeiros na Copa. O Japão, outro país que costuma importar técnicos, vai mesmo com Hajime Moriyasu para o Mundial. A rival Coreia do Sul, por sua vez, aposta ainda no português Paulo Bento, que naufragou quando trabalhou no Cruzeiro. A Croácia chegou à final da última Copa com Zlatko Dalic no comando e ele volta agora para o Mundial. Dentre as seleções europeias, só a Bélgica não terá treinador do próprio país. Isso é um grande sinal de que um velho tabu das Copas irá permanecer: nunca uma seleção foi campeã mundial contando com um treinador estrangeiro.

No momento em que o Brasil está vendo a volta de Felipão e Mano ao nosso mercado, que o “Malvadão” Flamengo para de ir à Europa buscar treinador e contrata Dorival Júnior e que o São Paulo entende que Rogério Ceni é mesmo o nome ideal neste momento do clube, a discussão sobre treinadores gringos ou não no país pode dar uma nova guinada. Será mesmo que Tite vai ter um sucessor estrangeiro ou o cargo dele cairá no colo de Cuca?

 


         
     

 

 

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Argentina e Brasil estão bem mais fortes que Mbappé e até do que muitos sul-americanos imaginam

Rodrigo Bueno
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Posso ser chamado de resultadista por causa de dois amistosos, mas Argentina e Brasil têm tudo para brigarem pelo título mundial, sim. E não simplesmente porque bateram com autoridade a Itália (3 a 0) e a Coreia do Sul (5 a 1) nos continentes desses adversários. Há vários pontos positivos que animam os gigantes sul-americanos que foram, de certa forma, menosprezados por Mbappé, astro francês que vai tentar um bicampeonato mundial genuíno no Qatar no final deste ano. Segundo o excelente atacante do Paris Saint-Germain, como as seleções sul-americanas pouco têm enfrentado as europeias, estariam em um nível abaixo.

“A vantagem que nós, europeus, temos é que sempre jogamos uns contra os outros e temos partidas de alto nível o tempo todo, como na Nations League. Quando chegarmos à Copa do Mundo, estaremos prontos. Argentina e Brasil não têm esse nível. Na América do Sul, o futebol não está tão avançado quanto na Europa. Por isso, quando você vê as últimas Copas do Mundo, são sempre os europeus que ganham”, afirmou Mbappé, que deve perder a Bola de Ouro para o conterrâneo Benzema. Alguns dos 'colegas' de Mbappé, sobretudo argentinos, já deram a resposta.

Finalíssima: Messi arrebenta, Di María faz golaço, e Argentina atropela a Itália; ASSISTA

Messi, eleito o melhor jogador da Finalíssima, a disputa entre as campeãs de Europa e América do Sul, vê um equilíbrio entre os dois continentes em termos de seleção.

“O futebol está cada dia mais equilibrado, seja qual for o adversário. A seleção argentina está preparada para jogar contra qualquer europeu. Muitas vezes falamos sobre isso na Espanha. Quando voltávamos de uma partida de eliminatórias, dizíamos a eles: ‘Vocês não sabem como seria difícil para vocês de classificar para a Copa do Mundo se tivessem que ir jogar lá’”, falou Messi para a TyC Sports. Parceiro de Mbappé no PSG, o genial argentino valorizou demais a Itália, que foi amassada pela Argentina. “É uma loucura a Itália ter ganhado a Eurocopa e não estar na Copa do Mundo, com tudo o que significa a Itália na história dos Mundiais. Se a Itália estivesse no Mundial, seria uma das favoritas. Tiveram má sorte. Ninguém gostaria de cruzar com a Itália”, afirmou Messi.   

Nos 3 a 0 da Argentina na Itália campeã europeia, Messi deu uma boa resposta para a fala de Mbappé sobre os sul-americanos
Nos 3 a 0 da Argentina na Itália campeã europeia, Messi deu uma boa resposta para a fala de Mbappé sobre os sul-americanos EFE

Di María, outro 'amigo' de Mbappé do Paris Saint-Germain, do qual acabou de sair após sete temporadas, não deixou barato também: “Acredito que hoje (3 a 0 na Itália) demonstramos que estamos à altura dos times europeus.” O goleiro Emiliano Martínez, tão bom quanto catimbeiro foi outra voz forte em defesa do continente sul-americano. “La Paz, na Bolívia (3.600 metros acima do nível do mar), Equador com 30 graus, Colômbia onde nem dá para respirar. Eles (europeus) sempre jogam em campos perfeitos, molhados e não sabem o que é a América do Sul. Toda vez que você viaja para jogar com a seleção, são dois dias de ida e volta. Você está exausto e não pode treinar muito. Quando um inglês vai treinar na Inglaterra, em meia-hora ele está em campo. Vai para Bolívia, Colômbia ou Equador ver como é fácil”, afirmou o arqueiro do inglês Aston Villa que se firmou como titular e como um dos pilares desta forte Argentina.

A seleção de Lionel Scaloni chegou a 32 jogos sem perder, e claro que a maioria dessas partidas foram contra adversários da própria América do Sul. Só que essa marca não deve ser minimizada, assim como a liderança folgada do Brasil nas eliminatórias para a Copa do Mundo não deve ser menosprezada. A maior ameaça para a invencibilidade da Argentina talvez seja mesmo o duelo contra a seleção brasileira no dia 22 de setembro, jogo que será realizado por determinação da Fifa (a entidade exige a partida que faltou no qualificatório para o Mundial). A equipe de Messi busca o recorde de jogos sem derrota da Itália de Mancini (37 partidas) e pode atingir essa marca no seu último confronto da fase de grupos da Copa, contra a Polônia, uma seleção europeia assim como a Estônia, a próxima adversária da Argentina. É mais fácil perder da Estônia ou em algum jogo fora na América do Sul?   

O divertido e articulado Loco Abreu, ex-atacante da seleção uruguaia, disse que Mbappé deveria fazer mais “pesquisas na Wikipédia” antes de falar, uma direta após a polêmica fala do francês sobre o nível do futebol sul-americano. Lautaro Martínez, atual atacante da Argentina, defendeu sobretudo as seleções de seu país e do Brasil. “Argentina e Brasil têm jogadores de grande experiência e alto nível. O Brasil também tem um elenco onde a maioria joga na Europa. Me pareceu que foi uma afirmação injusta (do Mbappé). Mas tudo bem, estamos nos preparando e vamos pensar no que está por vir, que é a Copa do Qatar.”

Se é verdade que a Europa vence todos os Mundiais de seleções desde 2006 e que só a Argentina em 2014 conseguiu ir a uma final sem ser uma equipe europeia, é verdade também que o Brasil assumiu a liderança do ranking da Fifa, desbancando a Bélgica depois de muito tempo. Tite parecia perdido e estagnado com sua seleção ao perder a Copa América em casa para a Argentina, mas jovens jogadores de beirada de campo, como Antony, Raphinha e Vinícius Junior, ajudaram a oxigenar o time e a melhorar a produção ofensiva. A própria Champions League última foi uma prova da força brasileira no momento. No lado campeão do Real Madrid, Casemiro, Militão, Rodrygo e Vini Jr. (apenas Marcelo não entrou na decisão). No lado vice-campeão do Liverpool, Alisson, Fabinho e Firmino (apenas o atacante ficou na reserva e não faz uma temporada de altíssimo nível).

A nacionalidade dominante na final da Champions foi a brasileira, e o gol do título foi marcado por um jogador sub-21 do país que tem tudo para ficar entre os dez melhores do planeta nas premiações individuais da temporada (disputar a Bola de Ouro não é mais coisa apenas para Neymar dentre os brasileiros). Na decisão em Paris envolvendo um time espanhol e um clube inglês, jogaram apenas três atletas nascidos na Espanha (Carvajal, Ceballos e Thiago Alcântara, que tem sangue brasileiro) e só dois mesmo da Inglaterra (Alexander-Arnold e Henderson). O técnico Carlo Ancelotti ajudou bastante a seleção brasileira ao evoluir alguns jogadores, sobretudo o titular Vinícius Junior e o reserva Rodrygo. Tite já agradeceu em entrevista ao vitorioso treinador italiano pela força que deu ao melhorar seus atletas da seleção. O momento do Brasil é muito bom, assim como é o da Argentina.  

Vinícius Júnior, autor do gol do título do Real Madrid na Champions League, deve figurar entr os melhores da Bola de Ouro e fortalecer o Brasil na Copa do Mundo
Vinícius Júnior, autor do gol do título do Real Madrid na Champions League, deve figurar entr os melhores da Bola de Ouro e fortalecer o Brasil na Copa do Mundo Twitter Oficial Real Madrid

Pelo chaveamento da Copa do Mundo, talvez tenhamos uma semifinal entre Argentina e Brasil, o que poderia ser visto como o maior embate entre as duas rivais na história. Pela lógica e pela qualidade técnica, a França seria a finalista para derrubar uma dessas potências sul-americanas. O Mundial do Qatar ainda não começou, mas a disputa América do Sul x Mbappé já está pegando fogo. Temos um europeu favorito contra dois fortes postulantes do nosso continente. Não sei qual vai vencer, mas quem está perdendo até aqui é o vestiário do Paris Saint-Germain. Mbappé fez há poucos dias a escolha mais difícil de sua carreira e também soltou sua maior bomba desde que virou astro global. Já estou vendo o que vão dizer para ele se os sul-americanos forem mesmo os melhores do mundo: "Receba!"

 

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Torça para José Mourinho não assumir o seu time, pois ele vai ser campeão e você irá amá-lo

Rodrigo Bueno
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Ser campeão continental com a Roma! Essa é a “decadência” do “ultrapassado” e “retranqueiro” José Mourinho. Um dos maiores gênios da prancheta na história do futebol. Primeiro a ganhar os três torneios grandes atuais da Uefa. Primeira, segunda e terceira divisão? Que seja. Se tem um cara capaz de levar times limitados ou com dificuldade histórica de ganhar um troféu, esse cara é o Special One. Ele só não foi campeão no Tottenham porque o demitiram na semana da final. Ele apostou certo ali na Copa da Liga, assim como apostou certo agora na Conference League com a Roma, mas simplesmente não o deixaram bater Guardiola mais uma vez em jogo decisivo (havia vencido o Manchester City duas vezes dirigindo os Spurs, que cometeram um erro a dispensá-lo).

O último título de um clube italiano antes da Roma de Mourinho foi aquela Champions da Inter de Mourinho, que eliminou o Barcelona de Guardiola em pleno Camp Nou mesmo jogando com um homem a menos por uma hora e sendo prejudicado pela arbitragem. Mestre da tática, o maior treinador português de todos os tempos bateu recordes defensivos na Inglaterra, onde quebrou a hegemonia do Manchester United de Sir Alex Ferguson, lenda que ele tirou da Champions League com um organizado Porto. Líder carismático, Mourinho foi só um dos três que superaram Guardiola nos pontos corridos, ganhando a Liga espanhola batendo recordes ofensivos (100 pontos e 121 gols). Essa foi a a “retranca” dele para ser campeão também na Espanha (já tinha vencido o Português, o Inglês e o Italiano). Talvez a “retranca” que inspira tantos, como Abel Ferreira no Palmeiras, que acaba de bater o recorde de gols em uma fase de grupos da Libertadores.      

É campeã! Zaniolo faz belo gol, Roma vence o Feyenoord e conquista o título da Conference League

         
     

Cinco finais de cinco grandes torneios da Uefa, com quatro clubes diferentes, e cinco títulos! E há quem não respeite José Mourinho. Um treinador que ficou 9 anos sem perder em casa e com 77 jogos de invencibilidade como mandante na Premier League (um recorde que Guardiola e Klopp ainda não bateram com suas máquinas), um cara que montou o melhor sistema defensivo da história dessa Premier League (apenas 15 gols sofridos). Quando teve muito dinheiro para gastar, marcou época no Campeonato Inglês e mudou o patamar do Chelsea. Quando não teve muita grana nem era favorito, ganhou tanto ou mais. Mourinho não precisa de Messi nem de bilhão para ser campeão. E ele faz isso muito com o coração. Milão o amava, e agora Roma também. Muitos jogadores se matam e choram por ele, e torcedores aos montes de identificam com ele. Nisso ele parece com Klopp, mesmo não sendo o poço de simpatia que alguns esperam.   

No automobilismo, tivemos muitos pilotos lendários, mas poucos venceram com os carros que não eram os melhores. É difícil triunfar com menos recursos e condições do que os adversários. Mourinho é o treinador que mais triunfou em todos os tempos com elencos e times que não eram os favoritos. Mesmo o Manchester United dele tinha as limitações e os problemas internos que vemos até hoje, só que ele saiu de Old Trafford com três taças, inclusive uma continental. Depois dele, ninguém ganhou nada comandando os Red Devils. Pediram para Mourinho na coletiva antes da final da Conference para dar um conselho para Ten Hag, novo técnico badalado do Manchester United. Elegante, o marrento português preferiu não falar do ex-clube.

Carlo Ancelotti, até outro dia, também era dado como técnico ultrapassado, basicamente porque estava treinando Everton e Napoli. Alguns dizem o mesmo de Mourinho, que agora ganha o primeiro título oficial da Uefa da história do apaixonante clube da capital romana. Torça para o ex-Special One (ele está tentando se descolar desse apelido, mas é sensacional e eterno) não assumir o seu time de coração, especialmente se você o odeia ou se você o desmerece. A chance de José Mourinho fazer seu time campeão e da torcida do seu clube passar a idolatrá-lo é enorme. Torça para que ele se aposente, pois também não é legal tê-lo como rival...

Mourinho na final da Conference League
Mourinho na final da Conference League Getty Images
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Abismo financeiro facilita recordes de Galo, Flamengo e Palmeiras na Libertadores

Rodrigo Bueno
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O Galo estabeleceu um novo recorde de invencibilidade na Conmebol Libertadores: são 18 partidas. Durante mais de 50 anos, a marca a ser atingida era de 17 jogos, sequência incrível alcançada pelo Sporting Cristal na década de 60 mesmo sem título continental do time peruano. O próprio Atlético-MG saiu invicto da edição passada do principal interclubes sul-americano, o que permitiu a ele se isolar neste ano como o recordista de invencibilidade. A antiga marca de 17 partidas já tinha sido obtida pelo Flamengo entre 2020 e 2021. E quem não está tão longe dela é o atual Palmeiras de Abel Ferreira, que não perde na disputa há 13 jogos. Em resumo, um recorde que parecia muito difícil de ser alcançado no passado, agora se abre para um seleto grupo de clubes brasileiros que vivem uma fase recente de muito investimento.     

O desequilíbrio financeiro no nosso continente está cada vez mais explícito. O Palmeiras, que tem se notabilizado nos últimos anos por fazer excelentes campanhas na fase de grupo da Libertadores, agora beira a perfeição: deve fazer os 18 pontos sem muita dificuldade e igualou o recorde do River Plate de Gallardo de 21 gols na fase de grupos. O Verdão tem tudo para se isolar como o melhor ataque de uma edição porque ainda tem mais um jogo para fazer: em casa contra o Deportivo Táchira, que levou 4 a 0 do Palmeiras na Venezuela. O time de Abel fez um placar agregado de 13 a 1 no Independiente Petrolero neste ano, outra prova da diferença de nível que existe hoje no futebol sul-americano. O Palmeiras já havia batido outro recorde do River de Gallardo: o de número de partidas sem perder como visitante. O time argentino, o mais bem-sucedido na década passada no continente, ficou 12 jogos invicto fora de casa, e o alviverde já soma 18 partidas!

Dos nove clubes brasileiros que entraram na Libertadores deste ano (um recorde), sete podem estar nas oitavas de final da disputa. Apenas o Fluminense, que caiu na terceira fase diante do Olimpia, e o América-MG, que agora tenta apenas a Copa Sul-Americana, foram eliminados. O Fortaleza precisa de ao menos um empate na rodada final no Chile diante do Colo-Colo. E o Red Bull Bragantino também tem um confronto direto fora de casa, contra o Nacional no Uruguai. Os quatro elencos mais destacados do futebol brasileiro devem passar em primeiro lugar em seus grupos: Atlético-MG, Corinthians, Flamengo e Palmeiras. Isso significa dizer que eles não devem se enfrentar nas oitavas de final e têm boas chances de alcançar as quartas. Muito possivelmente, o Verdão fechará com a melhor campanha da fase de grupos e poderá decidir sempre em casa, aumentando sua chance de uma terceira final consecutiva, talvez a terceira só com brasileiros.

O Flamengo de Gabigol ficou 17 jogos seguidos sem perder em Libertadores, mas o Atlético-MG de Hulk bateu o recorde com 18 partidas de invencibilidade
O Flamengo de Gabigol ficou 17 jogos seguidos sem perder em Libertadores, mas o Atlético-MG de Hulk bateu o recorde com 18 partidas de invencibilidade Marcelo Cortes/Flamengo | Pedro Souza/At

No passado, a Libertadores tinha menos times e mais equilíbrio. Os clubes campeões faziam normalmente menos jogos, entrando apenas em fases adiantadas da competição. Hoje, está muito difícil para os países vizinhos acompanharem a esquadra brasileira. E esse abismo é mais flagrante na fase de grupos. Até mesmo os gigantes argentinos têm sofrido com essa realidade. O presidente do River Plate em 2019, Rodolfo D’Onofrio, destacou em meio à final perdida para o Flamengo que seu clube faturava dez vez menos que o time carioca de direitos de TV, deixando claro que era bem complicado competir com o clube brasileiro.

A Copa Sul-Americana, que também viu uma final brasileira no ano passado (o Furacão bateu o Bragantino), deve ter nas oitavas de final vários candidatos ao título do nosso país. Além do São Paulo, campeão do torneio em 2012 que já está classificado matematicamente, Internacional e Santos devem levar sua força e tradição para o mata-mata. Mas a lista de representantes do Brasil no segundo interclubes da Conmebol pode ter ainda Atlético-GO, Bragantino, Ceará, Fortaleza e até o Fluminense, que agora possui chances remotas de classificação. A decisão deste ano da Sul-Americana vai ser em Brasília, o que pode aumentar ainda mais o favoritismo nacional na competição. Com clubes brasileiros vencendo Libertadores e Sudamericana (mesmo poupando titulares em várias partidas), a Recopa também passa a ser uma disputa internacional restrita apenas a clubes do país.  

Nesta fase de domínio brasileiro na América do Sul, o Palmeiras estabeleceu na era Crefisa praticamente todos os recordes nacionais na história da Libertadores: mais participações, mais participações seguidas, mais títulos, mais pontos, mais vitórias, mais gols, mais saldo etc. Das últimas 12 edições da Libertadores, oito foram vencidas pelos clubes brasileiros, que estão encurtando a liderança argentina na galeria de troféus (está 25 a 21 para os “hermanos” agora). Na Copa Sul-Americana, o Brasil tem cinco troféus contra nove da Argentina, mas o Athletico, um símbolo de clube emergente brasileiro, já tem o mesmo número de títulos na disputa do que o Boca Juniors e o Independiente, “Reis de Copa”.

Caso os clubes brasileiros fiquem de fato unidos em torno da criação de uma liga nacional independente da CBF, a tendência é de todos aumentarem suas receitas e transformarem essa atual hegemonia na América do Sul em algo ainda maior. Com mais dinheiro (e talvez com menos restrições e limites para a chegada de estrangeiros no país), será ainda maior o abismo que vemos hoje. Se isso acontecer, a Conmebol talvez terá que pensar em um sistema de fair play financeiro para não transformar a América do Sul em uma Oceania (sem a Austrália, a Nova Zelândia nada de braçada por lá em termos de seleção e também de clubes).

Não é sempre que vemos no nosso continente um time tão bom e duradouro como o River Plate de Gallardo. E não é sempre que veremos nos próximos anos um título continental sair do Brasil.

 

         

    

 

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Haaland no Manchester City será o teste final para ver se Guardiola se dá bem com centroavante

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

O cometa Haaland, na teoria, tem tudo para se encaixar com uma luva no excelente time do Manchester City, mas o histórico de Guardiola com grandes centroavantes e com jogadores que têm muito brilho individual não dá garantia de sucesso para esta negociação que agita agora o futebol mundial. O jogo coletivo do brilhante treinador espanhol consagrou muitas vezes “falsos 9” e deixou de lado alguns artilheiros com boa presença de área e com mais sede de protagonismo. Por mais que Haaland tenha nascido na Inglaterra (ele é norueguês, mas nasceu em Leeds e torce pelo time da cidade), seu pai possua ligação com o Manchester City e ele desde garoto parecia encaminhado para jogar na Premier League, a adaptação ao estilo de Guardiola, ao chamado jogo de posição, pode ser mais complicada do que muita gente imagina.    

Guardiola começou a brilhar como técnico no Barcelona aproveitando bem a base do clube e da seleção espanhola que ganhou a Eurocopa em 2008 sob o comando de Luis Aragonés e com a marca do tiki-taka, sistema pautado essencialmente pelo controle da posse de bola, abusando muitas vezes de incessantes trocas de passes até que algum espaço apareça na defesa rival. Guardiola, que já mostrou certa rejeição ao tiki-taka espanhol (é visto por alguns como algo chato), dispensou Eto’o, um atacante que marcou época no Barça e que serviu bastante como referência do time de Xavi e Iniesta. Até hoje, Eto’o odeia Guardiola. Ele foi para a Inter de Mourinho e ajudou na semifinal a eliminar o então badalado Barcelona da Champions League de 2010. Guardiola usou naquele jogo o centroavante Ibrahimovic, outro atacante de força e personalidade que passou a detestar o treinador espanhol.

Haaland, novo atacante do Manchester City, vai testar a capacidade do Guardiola de trabalhar com centroavantes que são estrelas
Haaland, novo atacante do Manchester City, vai testar a capacidade do Guardiola de trabalhar com centroavantes que são estrelas Alexandre Simoes/Getty Images

“O Guardiola viveu toda uma vida em Barcelona, mas, durante todos aqueles anos, nunca entendeu o plantel. Não vivia a vida do nosso grupo. Podem perguntar ao Xavi, ao Iniesta, a muitos outros... O Messi despontaria mais tarde, mas aquela foi a minha era. O meu agente me disse que o clube queria me vender por pedido do Guardiola. Hoje em dia, vejo que ele me deu a oportunidade de ganhar a Liga dos Campeões pela Inter de Milão  e entrar ainda mais na história do futebol”, disse Eto’o ao beIN Sports. O camaronês costuma dizer que não dá para comparar Guardiola com Mourinho: “Um não conseguiu ganhar a Champions com o Bayern, e o outro ganhou com o Porto.” Ibrahimovic, que também é da turma que defende Mourinho com unhas e dentes, critica Guardiola abertamente por não ter conseguido aproveitar suas características: “O Guardiola tinha uma Ferrari, mas a dirigiu como um Fiat”, diz o polêmico sueco.  

         

    

A ascensão de Messi no Barcelona instaurou ainda mais a figura do falso 9 no time. Na verdade, nem Henry, que foi no Arsenal um comandante de ataque de muita mobilidade e habilidade, conseguiu ter muito sucesso na equipe catalã. Guardiola, que já chegou ao Barcelona barrando a estrela Ronaldinho Gaúcho, levou seu jogo coletivo para o Bayern, que venceu a Champions pouco antes e logo depois da passagem do treinador espanhol pela Alemanha. Lewandowski evoluiu e virou Bola de Ouro após a saída de Guardiola do time alemão, onde atua como referência no ataque. Haaland se adaptou rapidamente ao futebol alemão também, aproveitando quase sempre um futebol mais direto e contundente no Borussia Dortmund. O norueguês tem um estilo rápido, apesar do seu tamanho, mostrando-se sempre perigoso em  arrancadas em contra-ataques. Ele também costuma ser alvo de cruzamentos devido à sua estatura. Contra-ataque e jogo aéreo não combinam bem com o estilo de Guardiola, que muitas vezes usou no Manchester City como referência jogadores com Gabriel Jesus, Sterling e Ferran Torres, atletas de tipo físico mais baixo.

Haaland costuma sair da área para buscar jogo e participar da criação de jogadas também, ele não é apenas um poste na área, mas ele vai ter que se doar ainda mais taticamente sob o comando de Guardiola. Nos clubes em que jogou e na seleção da Noruega, ele era a estrela, a referência, o time o buscava. No Manchester City, ele terá que ser mais uma peça na máquina, atuar de forma mais coordenada. O norueguês, que possui uma média de praticamente um gol por jogo em sua carreira, vai ter certamente muitas oportunidades de gol com a camisa azul de Manchester de seu pai, mas não há total certeza de que o funcionamento coletivo do time de Guardiola irá receber esse verdadeiro 9 sem que seja necessário algum tipo de ajuste ou de sintonia fina. Talvez outros destaques da equipe percam em protagonismo, tenham que ficar mais fora da área e servir ainda mais, correr ainda mais para o time. Guardiola, que não fez tanta força para contratar Cristiano Ronaldo, já disse que não gosta de jogadores que pensam de forma individualista, de atletas que pensam muito em marcas e recordes. Talvez por isso também Grealish, que curte um mano a mano, não deu tão certo no Manchester City ainda.

Haaland, desde pequeno, é uma fábrica de gols e recordes, sempre foi muito cercado de holofotes, embora seja humilde. Guardiola tem um enorme e talentoso centroavante nas mãos. Vai explodir?

 

         

    


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Haaland no Manchester City será o teste final para ver se Guardiola se dá bem com centroavante

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Ancelotti e Mourinho, que alguns davam como acabados, brilham na Europa e animam grandes seleções

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

O tempo é implacável! Com pessoas e com alguns julgamentos. Em várias áreas da sociedade, vemos uma certa vontade de aposentar profissionais com idade um pouco mais avançada. Claro que tem algo de natural nisso, afinal os mais novos chegam com muita vontade, atualizados e normalmente ganhando salário menor. Mas descartar pura e simplesmente a experiência e um currículo de peso porque “o tempo passou” muitas vezes é um erro e uma grande injustiça. Eu poderia citar aqui uma série de exemplos, mas focarei o post em dois dos maiores técnicos da história do futebol que estavam meio esquecidos, descartados e que foram até ridicularizados: Carlo Ancelotti e José Mourinho.    

Carlo Ancelotti x José Mourinho
Carlo Ancelotti x José Mourinho Getty Images

O italiano que fará 63 anos no mês que vem é conhecido pela liderança silenciosa. Tem muito menos marketing do que outros treinadores. Mesmo assim, ele é o primeiro técnico a ser campeão nacional nas cinco principais ligas da Europa e também agora o recordista isolado em finais de Champions League comandando uma equipe (cinco decisões, uma a mais do que Sir Alex Ferguson, Jürgen Klopp, Marcello Lippi e Miguel Muñoz). Ancelotti, que já tinha feito um ótimo trabalho no Real Madrid em sua primeira passagem, voltou ao clube merengue para a surpresa de muita gente que esperava algum treinador da moda, alguém mais valorizado no momento, um cara menos velho.   

Nesta memorável temporada do Real Madrid, o experiente Ancelotti eliminou, em série, os endinheirados Paris Saint-Germain (Mauricio Pochettino), Chelsea (Thomas Tüchel) e Manchester City (Pep Guardiola). Três treinadores que estão em alta prateleira do futebol europeu por trabalhos recentes caíram na hora mais aguda diante de um Ancelotti que outro dia perdeu do Sheriff em casa, um Ancelotti que parecia, para alguns, só em condições de treinar um Napoli ou um Everton. Mesmo nesses times que não brigam por título de Champions, havia olhares de desconfiança sobre a capacidade atual do trabalho de Ancelotti. Após eliminar o City de Guardiola, uma das tantas imagens tocantes no Santiago Bernabéu foi a do italiano agradecendo ao chefe Florentino Pérez: “Obrigado por me trazer, presidente”.

Ancelotti sabe que a chance de treinar um time de ponta para quem tem idade mais avançada é rara. Ele já decidiu que o Real será seu último clube, sairá por cima mesmo que perca a final para o Liverpool de Klopp, que tem mais time e mais tempo de trabalho. Conseguiu o título espanhol com sobras, quando alguns apontavam o Atlético de Madrid de Simeone como favorito inicialmente. Ele evoluiu vários jogadores, especialmente os brasileiros Vinícius Júnior e Rodrygo, oferecendo de bandeja para Tite um atacante titular desequilibrante e um outro reserva que é capaz de mudar jogos complicados no final. Deu mais solidez e confiança a Militão, manteve a liderança e a competitividade de Casemiro e resgatou até Marcelo, que estava para sair do clube.

Vinicius Jr. e Ancelotti pelo Real Madrid
Vinicius Jr. e Ancelotti pelo Real Madrid Getty Images

Modric está jogando mais do que quando ganhou a Bola de Ouro. E Benzema então? Vai ser o próximo Bola de Ouro também pelo esquema montado por Ancelotti, que vai ceder um monstro de centroavante para a seleção francesa tentar outro título mundial. Quase sem nenhum reforço de peso ou galáctico para a temporada (o titular Alaba e o reserva Camavinga foram as grandes novidades na equipe) e com alguns jogadores estelares que não estão muito a fim há um bom tempo, como Bale, Ancelotti foi levando o barco com Asensio, Isco, Mariano, Jovic, Lucas Vázquez, Nacho e Ceballos. Não é o melhor Real Madrid da história, é inferior a todos os adversários que pegou no mata-mata. Isso só aumenta o valor do treinador, que entende muito de futebol e do clube que dirige, da camisa pesada que representa. Como bom italiano, Ancelotti organiza bem seu time taticamente e tem mais cautela no início (por isso Rodrygo normalmente só entra no fim dos jogos e o time vira nesses momentos em que se abre). Discípulo do genial Arrigo Sacchi, o ex-volante do Milan diz que vai torcer para sempre para o Real e para o rubro-negro italiano quando se aposentar. Mas tem gente na Itália querendo ver Ancelotti como treinador da Azzurra, que pela segunda Copa seguida fica fora da maior festa do futebol mundial. O treinador, com um pequeno sorriso e sua tradicional sobrancelha levantada, afirmou apenas, em entrevista recente, que quer mesmo é que a Itália esteja no Mundial de 2026.

Mas a Itália redescobriu outro gênio da prancheta: José Mourinho, que já revelou algumas vezes ter o desejo de treinar alguma seleção algum dia (a Azzurra seria uma das opções). Mourinho pode ser o primeiro técnico a ganhar os três principais interclubes da Europa: já ganhou a Champions League duas vezes, a Copa da Uefa e sua sucessora Europa League uma vez cada e, agora, pode faturar a Conference League. E pode fazer isso com a Roma que, de título internacional, tem só a antiga Copa das Feiras, uma taça de cidades, em 1961. O último clube italiano que ganhou algum título europeu foi a Inter de Mourinho em 2010, temporada em que o lendário Special One conseguiu a Tríplice Coroa no calcio. Também foi em 2010 que ele eliminou de forma épica no Camp Nou o badalado Barcelona de Guardiola mesmo jogando com um atleta a menos (Thiago Motta foi injustamente expulso) por mais de uma hora contra Messi.

Muito possivelmente, Mourinho também possuiria títulos das cinco principais ligas nacionais da Europa se tivesse a chance de treinar por uma temporada o Bayern de Munique e o Paris Saint-Germain nos últimos anos. Ele ganhou Premier League, LaLiga e Serie A, faltaram os campeonatos de Alemanha e França para igualar Ancelotti. Pouca gente sabe, mas Mourinho, tão poliglota quanto Guardiola, também fez curso de alemão. Perguntaram para ele se seria por algum acerto com algum clube da Alemanha (Guardiola estudou o idioma antes de assumir o Bayern), mas Mourinho disse que não, seria apenas para adquirir mais conhecimento e ajudar nos papos com jogadores e outros profissionais que falam alemão, prova de que ele não está acomodado e ainda busca evoluir. Mesmo com currículo invejável (ficou 9 anos sem perder em campeonato nacional como mandante e quebrou recordes defensivo, na Inglaterra, e ofensivo, na Espanha), Mourinho foi colocado de lado pelos times de ponta da Europa nos últimos anos, mas veja o que aconteceu com o Manchester United após a saída dele. Nada. Ou crise atrás de crise. Mourinho ganhou Liga Europa, Copa da Liga e Supercopa da Inglaterra pelos Red Devils. Depis, ninguém ganhou mais nada. O Special One não era o problema do clube. E ele até avisou a turma em Old Trafford sobre os problemas que vinham de temporadas anteriores. Foi em busca de um novo desafio então, dizendo sempre que ainda tem muitos anos de estrada para trabalhar como técnico, esbanjando motivação e disposição maior até para as mídias sociais e documentários, sendo mais "moderninho" e divertido. 

José Mourinho durante jogo da Roma no Campeonato Italiano
José Mourinho durante jogo da Roma no Campeonato Italiano Matteo Ciambelli / Getty Images

No Tottenham, que não ganha título nenhum desde 2008, Mourinho melhorou até o Kane, que virou um artilheiro-garçom, rei de assistências também, aproveitando a velocidade de Son e Lucas Moura. Assim, bateu duas vezes o poderoso Manchester City de Guardiola, mas o demitiram na semana da final da Copa da Liga. Era a chance de os Spurs saírem da fila, mas deixaram um estagiário comandar o clube na decisão contra o favorito City. Tem todo um bastidor nessa demissão inoportuna do Special One envolvendo a então Superliga europeia (que nasceu praticamente morta), mas o fato é que Mourinho foi sacado de forma burra após ele apostar alto e certo na Copa da Liga para dar um troféu ao carente clube londrino. Eliminou no caminho até seu querido Chelsea no famoso jogo do banheiro (ele foi buscar o zagueiro Dier, que estava com “necessidades”, no banheiro na reta final do jogo). Mas cortaram suas pernas a poucos dias da decisão. Pior para o Tottenham, caso singular de lugar em que Mourinho trabalhou e não ergueu troféu.  

Assumir a Roma permitiu a Mourinho reencontrar a pátria da tática e da defesa. Os italianos o respeitam demais, ele é amado pela torcida da Inter de Milão e também agora pela galera da Roma. Além dos resultados, ele age muito com o coração, é latino demais, faz de cada jogo e de cada copa uma experiência especial. Ele é um obcecado por vitória, quer fazer da Roma campeã, como quase fez com o Tottenham. Por isso deu tanto valor para a Conference, a mais nova competição da Uefa. Deixou para trás alguns rivais encardidos, inclusive o Bodo/Glimt, campeão norueguês que manda jogos no Ártico em gramado artificial e que meteu seis na Roma de Mourinho na fase de grupos. Mourinho, que é criticado muitas vezes por problemas de relacionamento, reformulou o time após a goleada sofrida, deixando de lado atletas como Bryan Reynolds, Gonzalo Villar e Borja Mayoral. Mexeu duramente com o grupo, que fez algumas grandes partidas na temporada. Meteu 3 a 0 no clássico contra a Lazio e aplicou um 4 a 1 fora de casa na Atalanta do badalado Gian Piero Gasperini, um caso raro de técnico veterano que estava em alta nas últimas temporadas.  

Mourinho vai completar 60 anos no ano que vem, é bem mais experiente do que Arne Slot, técnico de 43 anos do Feyenoord, seu embalado adversário na final da Conference League. O Special One já fez história ao chegar à final, sendo o primeiro treinador a alcançar decisões continentais na Europa por quatro clubes diferentes (Porto, Inter, Manchester United e Roma). O homem que ganhou Champions League com Carlos Alberto e Derlei no ataque já provou que não precisa de Messi, de Cristiano Ronaldo ou de muito investimento para fazer grandes trabalhos. Pegou o atacante Abraham, já que o querido Chelsea não o queria, e está fazendo história na Roma mesmo com algumas limitações e sem contar com o ótimo ala-esquerdo Spinazzola, lesionado. A Roma perdeu apenas um dos seus últimos 14 jogos na Serie A.

Eu poderia aqui lembrar também de Van Gaal, veterano que estava aposentado e que topou a missão de salvar a seleção da Holanda e guia-la até a Copa mesmo lutando contra um câncer agressivo de próstata. Só que os “Bolas da vez”, mais uma vez, são Ancelotti e Mourinho. Talvez eles percam as suas finais continentais e voltem a ser rotulados por alguns como antiquados e ultrapassados, mas acho que eles já merecem muitos elogios pelo que fizeram nesta temporada. A história eles já escreveram faz tempo e todos sabem, estavam já na galeria dos maiores. Mas eles estão mesmo agora em um grande momento, chorando de emoção como fez Mourinho ao eliminar o Leicester City, abraçando tão agradecido o presidente que deu um emprego improvável como fez Ancelotti.

Meu urologista tentou me convencer há algumas semanas que eu ainda sou jovem. Disse a ele que estou perto de completar 50 anos. Ele me explicou então que hoje, com o avanço da medicina e alguns hábitos, jovem pode ter até 70 anos (ele até sugere, brincando de forma séria e científica, que os benefícios dados para a terceira idade passem no país de 60 para 70 anos). Vendo show do Kiss, com Paul Stanley voando em tirolesa por cima da multidão aos 70 anos, e curtindo a temporada de Ancelotti e Mourinho, estou acreditando ainda mais no meu urologista.


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Invasão de técnicos estrangeiros no país mostra como o São Paulo de Telê é referência mundial

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Faz 30 anos que o São Paulo de Telê conquistou sua primeira Libertadores e seu primeiro Mundial. Algumas homenagens e obras deverão ser feitas neste ano sobre essas duas conquistas, tão marcantes para o futebol brasileiro, sobre o Newell’s Old Boys de Marcelo Bielsa e sobre o Barcelona de Johan Cruyff. Mas os maiores elogios atuais feitos ao esquadrão tricolor que Telê montou nos anos 90 estão partindo de treinadores estrangeiros, cada vez mais presentes no futebol brasileiro e cada vez mais didáticos em suas coletivas de imprensa. Os portugueses Vítor Pereira e Abel Ferreira, técnicos de Corinthians e Palmeiras, já disseram abertamente que admiram o futebol do time de Telê.  

“Eu, quando cheguei, disse que gostava de um futebol de circulação, objetivo e de posse. Um futebol com uma transição agressiva muito forte, esse é o futebol que gosto de ver. Onde eu me inspirei? O que me marcou para eu gostar desse futebol? Marcou ver jogar o Barcelona de Cruyff, ver jogar o Milan do Arrigo Sacchi e o São Paulo de Telê Santana”, contou Vítor Pereira, sem medo de gerar críticas de corintianos por isso.

Ele repete em boa parte a atitude de Abel Ferreira, que mais de uma vez usou Telê como exemplo positivo para sua carreira. Quando participou do programa “Seleção Sportv”, o treinador palmeirense surpreendeu ao mostrar um livro de Telê. “Eu tenho aqui em casa um livro do Telê Santana. Comprei quando estive no Brasil. Nós podemos aprender com todos os treinadores. Não só os portugueses. Eu gosto muito do Klopp, que é alemão, do Guardiola, que é espanhol, do Mourinho, que é português. O treinador português compartilha conhecimento. Nós não fechamos”, afirmou Abel. 

No badalado “Roda Viva” em que ele esteve, fez questão de dizer que aceitou participar do programa para “homenagear duas grandes personalidades do desporto brasileiro”. “Uma tem mais a ver com a minha profissão, que é Telê Santana. E outra tem a ver com o desporto motorizado, que eu amo, que é o Ayrton Senna. Foi por essa razão que eu aceitei vir a este programa. Já tinha visto a entrevista desses dois.”


Uma das vozes que mais elevam o São Paulo de Telê mundo afora é simplesmente a de Guardiola. “Me recordo muito bem daquela final (Mundial interclubes de 1992 entre o São Paulo e o Barcelona). O São Paulo foi infinitamente superior, com Raí, Muller e outros jogadores fantásticos. Não tivemos nenhuma ação para competir com eles, quanto mais para ganhar. O São Paulo dominou o mundo”, afirmou o ex-volante do time de Cruyff quando treinava o Bayern em 2013 e foi enfrentar o São Paulo pela Audi Cup. Dois anos antes, quando goleou o Santos na final do Mundial com seu Barcelona, Guardiola já tinha falado muito bem do São Paulo de Telê. “Lembro de 1992, quando éramos favoritos. A frustração está superada. Foi uma pena, mas tenho o conhecimento de que o São Paulo foi muito melhor”, disse ele.  

Cruyff, o mentor de Guardiola, também elogiou o São Paulo após aquela derrota em 1992, dizendo que “se era para ser atropelado, que seja por uma Ferrari”. O genial holandês, que também havia perdido por 4 a 1 para o São Paulo de Telê em 1992 na Espanha na decisão do Teresa Herrera, classificou, em autobiografia, a derrota no Mundial interclubes de 1992 como algo natural. “Foi uma das poucas vezes que não tive problemas com uma derrota. Sempre admirei o técnico brasileiro Telê Santana por sua visão, porque sempre exibia um amor genuíno pelo futebol”, escreveu.

Telê Santana Treino São Paulo 30/04/1994
Telê Santana Treino São Paulo 30/04/1994 Gazeta Press

Marcelo Bielsa, outro nome que influenciou Guardiola, sabe bem o que era aquele São Paulo de Telê, a quem chama de “uma mente superior”. “Era uma equipe única e extraordinária”, disse o treinador argentino que dá nome ao estádio do Newell’s Old Boys, que parou no São Paulo nas Libertadores de 1992 e 1993. Nessa entrevista para Renato Senize, correspondente brasileiro na Inglaterra, Bielsa até sorriu lembrando a escalação de São Paulo de 1992: “Era impossível ser superior ao São Paulo. Eram tão bons que o 1 a 0 em Rosario não era suficiente”, contou o “Loco”.

Diante de tantos elogios de estrangeiros ao São Paulo de Telê, eu tenho ainda mais convicção de que esse esquadrão é um tanto quanto subestimado aqui no Brasil. Vários outros times que venceram muito menos e que não ganharam o mundo são sistematicamente mais lembrados nas listas de maiores da história e dos “melhores que eu vi”. Inclusive muitos são-paulinos da antiga colocam a geração dos Menudos, o São Paulo entre 1985 e 1987, como superior (mais vistosa ou na frente por memória afetiva) à de Telê. Se o Santos de Pelé é reverenciado muito pelo talento de seus jogadores, notadamente o Rei, o São Paulo de Telê, pelo que vemos hoje até dos técnicos estrangeiros, tem como muito mérito a mão de seu treinador, a parte tática.    

O impacto do São Paulo do início dos anos 90 é enorme por vários fatores, ajudou a Libertadores a se tornar ainda mais uma obsessão no Brasil. O sucesso internacional daquela equipe inspirou outros brasileiros a alimentar o então “Projeto Tóquio”. Há quem diga aquele o Mundial naquela época era apenas uma Copa Toyota (na verdade, eram dois troféus dados ao campeão, o da Copa Intercontinental, feito pela Uefa e pela Conmebol, e a Copa Toyota, oferecido pela patrocinadora japonesa do evento). Mas muita gente que acompanhou os Mundiais vencidos pelo São Paulo de Telê (contra Barcelona de Cruyff e o Milan de Capello) não o esquecem até hoje. Que o digam a referência Guardiola (o técnico mais influente deste século), Vítor Pereira e Abel Ferreira.

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Montar a seleção brasileira feminina de todos os tempos é um desafio pelas condições de cada geração

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Por ser um dos brasileiros colaboradores da IFFHS (Federação Internacional de História e Estatística do Futebol), recebi a missão de montar até o final deste mês o que seria a seleção brasileira feminina de todos os tempos. A entidade internacional, que já montou equipes históricas para os homens, agora se debruça mais fortemente no futebol feminino. O pedido é para que todos os colaboradores ao redor do mundo consultem especialistas e preparem essas seleções que misturam diversas gerações. Já imaginou Marta e Sissi jogando juntas, por exemplo? Claro que a seleção brasileira de todos os tempos contaria com esse privilégio.

Kátia Cilene e Sissi, estrelas do passado da seleção, disputam jogo em 1997, quando foram campeãs nacionais pelo São Paulo
Kátia Cilene e Sissi, estrelas do passado da seleção, disputam jogo em 1997, quando foram campeãs nacionais pelo São Paulo Gazeta Press

Em alguns países, não será fácil montar uma seleção ideal da história simplesmente porque ainda não houve o devido desenvolvimento da modalidade. Não é o caso do Brasil, que já figura há décadas entre os melhores no ranking da Fifa, tendo disputado inclusive todas as edições do Mundial (foi vice em 2007) e todos os torneios olímpicos (ganhou prata em 2004 e 2008). São muitos nomes importantes e históricos desde 1986, quando a equipe feminina do nosso país fez sua estreia (perdeu um amistoso para os Estados Unidos, maior potência, por 2 a 1).

Neste século, o avanço do futebol feminino foi enorme, a modalidade de fato virou algo global, indo bem além dos países nórdicos, da Alemanha, da China, do Japão, da Austrália, da Nigéria, dos Estados Unidos, do Canadá e do Brasil. A Fifa e outras federações têm estimulado e difundido a prática, os campeonatos estão cada vez mais regulares, as condições estão bem melhores do que no século passado (embora ainda não sejam as ideais), o nível está crescendo, e o interesse geral também. Mas, até por vivermos uma nova era do futebol feminino, fica bem difícil misturar em um time as melhores atletas da atualidade com as craques pioneiras que tiveram ainda mais adversidades. É quase como comparar as fases de amadorismo e profissionalismo.

Das 10 jogadoras com mais partidas pela seleção brasileira, apenas a veterana Formiga não estreou na equipe a partir do ano 2000. Hoje, joga-se muito mais vezes do que no passado, e isso afeta diretamente nas estatísticas, nos números históricos. Apenas em 2013, a CBF passou a organizar o atual Campeonato Brasileiro feminino, competição transmitida para o país todo e com a participação de grandes camisas do esporte nacional. Entre 1983 e 2007, a antiga Taça Brasil não tinha muita visibilidade, o espaço na mídia era pequeno e pouco se via das principais jogadoras a não ser quando estavam a serviço da seleção.

“A Fifa lançou um documentário sobre a Sissi. Se ela tivesse a estrutura que teve a Marta... A Sissi não tinha academia, não podia treinar, dadas as circunstâncias. A Marta é genial no momento dela, e a Sissi é fantástica no sentido de resistência. Ambas são LGBTQIA+, sofreram preconceitos de todas as formas, ambas viveram realidades distintas na CBF mas todas preconceituosas”, diz Luciana Mariano, a primeira narradora da televisão brasileira. Na seleção brasileira feminina de todos os tempos da Luciana, estão vários nomes da antiga geração.

“Nessa seleção, a Marta e a Sissi não podem faltar. A Roseli (atacante que jogou até 2004 na seleção) também não. A Kátia Cilene (atacante que jogou até 2007 na seleção) era uma garota fora do normal, a Pretinha (atacante que jogou regularmente na seleção até 2008) também. Temos meias e atacantes que são muito destacadas. Acho que a Ju Cabral (Juliana, capitã da seleção entre 2001 e 2004) foi uma baita zagueira, pode botar na minha lista”, afirma Luciana, uma das narradoras da ESPN hoje.

Cristiane, Marta e Formiga, três nomes que figuram com destaque na história da seleção brasileira feminina
Cristiane, Marta e Formiga, três nomes que figuram com destaque na história da seleção brasileira feminina Getty Images

Dentre as principais artilheiras da história da seleção, já figuram nomes da atualidade, como Debinha, que está com 30 anos. Atacante que costuma ser titular da equipe de Pia Sundhage, Debinha está na seleção ideal de todos os tempos montada pela Natasha David, apresentadora da ESPN que a escalou ao lado da artilheira Cristiane no ataque, deixando Marta e Sissi na armação.

A IFFHS pediu que eu enviasse a seleção brasileira feminina de todos os tempos montada no 4-4-2, no 4-3-3 ou no 3-4-3. E eu peço a você, agora, que me ajude também a definir essa equipe ideal. Pode mandar seu time nas minhas mídias sociais (@RodrigoBuenoTV no Twitter , @rodrigobuenobubu no Instagram e www.facebook.com/RodrigoBuenoJornalista ) que levarei em conta seu voto, sua preferência. Certamente o Brasil terá uma das seleções históricas mais fortes entre todas.   

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As várias razões que fizeram o Liverpool ser o clube mais legal do mundo atualmente

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Sem clubismo e sem bairrismo, qual é o clube de futebol mais legal do mundo atualmente? Difícil mesmo não dizer Liverpool. Tentarei elencar aqui os vários motivos que fazem do time inglês o mais bacana e admirável nos tempos atuais, contrariando o que foi visto durante várias décadas, por culpa ou não dos Reds.   

Vou começar pelo treinador. Quem não adora o Jürgen Klopp? Está para nascer ainda um alemão mais simpático do que ele. Mesmo os que dizem que Guardiola é o melhor técnico do mundo se derretem pelo boa praça que comanda hoje o Liverpool. “Eu adoraria tomar uma cerveja com o Klopp ou convidá-lo para um churrasco”, escuto aqui e acolá. Se todo mundo odeia o Cris, todo mundo ama o ex-técnico do Mainz e do Borussia Dortmund. Ele cria uma conexão fácil e calorosa com os torcedores dos clubes que dirige, aliás ele escolhe os times em que trabalha também por causa da arquibancada, ele não curte times e torcidas artificiais.     

Na esteira desse carismático treinador, o estilo de jogo do Liverpool é puro entretenimento. Uma equipe ofensiva, direta, objetiva, contundente, ação sempre garantida. O melhor ataque da Premier League não é o Manchester City de Guardiola, que curte jogo de posição e um domínio do jogo pautado bastante pela posse da bola. Klopp foi influenciado pelo pressing do fabuloso Milan de Arrigo Sacchi e já declarou que seu time pratica um futebol “heavy metal”. O termo gegenpressing é o que mais se aplica ao tipo de jogo do Liverpool, uma corrida frenética para recuperar a bola logo após a sua perda. Alguns dizem que é o contra-ataque do contra-ataque. Um time que esbanja intensidade.

Eu já vi gente ficar encantada e entediada com o Tiki-taka ou com os times que fazem da esmagadora posse de bola uma obsessão, um troféu. Amo o Cruyff e entendo a lógica de que joga quem tem a bola. Guardiola é cruyffista e elevou esse conceito neste século. Só que Klopp e seu jogo mais elétrico parece ter menos rejeição. A tática do alemão é mais emocional, proporciona mais trocação. Se pudesse comparar com MMA (e eu não entendo nada de luta), os times que trabalham com paciência a bola seriam os lutadores especialistas no solo, aqueles que travam o oponente e o finalizam em algum momento sem permitir quase nada ao rival. Muita gente prefere a luta em pé, mais franca, com golpes mais escancarados. O risco e o desgaste são maiores, mas há mais show, talvez isso seja o que torna os times de Klopp, cheios de energia e atitude, tão agradáveis, tão envolventes, tão legais.

Jürgen Klopp, o simpático técnico alemão que transformou o Liverpool em um time admirado em todo o mundo
Jürgen Klopp, o simpático técnico alemão que transformou o Liverpool em um time admirado em todo o mundo Liverpool

 

Ainda ficando na bola, o Liverpool tem no seu elenco jogadores de 17 nacionalidades diferentes. Tem gente que se sente representada no time na África, na Ásia e na América Latina. Conta com um egípcio que briga para ser melhor do mundo, um ídolo no chamado Mundo Árabe. Possui um outro atacante de alto nível que é o craque da melhor seleção africana (Senegal). Mané carrega muito do talento da África subsaariana, é um exemplo de humildade, uma pessoa simples e admirável. Praticamente ninguém custou uma fortuna. Alisson, goleiro brasileiro que superou um drama familiar com heroísmo não faz tanto tempo, e Van Dijk, o capitão e xerife holandês que é rotulado como o melhor zagueiro do mundo, chegaram basicamente ao clube porque Philippe Coutinho saiu para ao Barcelona e rendeu uma bolada ao Liverpool. As contratações feitas pelo clube nesta era Klopp são cirúrgicas, certeiras, não há uma busca por Messis, Cristianos Ronaldos, Neymares, não há megalomania nem egos.

Os laterais titulares são de altíssimo nível e figuraças, tanto que Alexander-Arnold e Robertson fazem sucesso em um programa mostrando entrosamento dentro e fora de campo. Arnold, assim como Keita e Mané, já sofreram com insultos racistas em mídias sociais, e o Liverpool entrou forte na luta contra o racismo e outras formas de preconceito, abraçando o projeto Red Together. O elenco tão diverso e globalizado do Liverpool se sente bem e respaldado pelo clube e por seu treinador tão humano. E essa atmosfera está visivelmente espalhada para os torcedores do time.

A cena em Anfield no minuto 7 no clássico contra o Manchester United está na história do esporte, não só do futebol. Homenagear o craque e ídolo do maior rival que perdeu um filho foi uma das mais belas demonstrações de solidariedade já vistas em qualquer época. CR7 e sua família já agradeceram a lembrança, e o mundo todo reverenciou a iniciativa da torcida dos Reds, que, como de costume, lembrou com carinho neste mês de abril das 97 vítimas fatais da tragédia de Hillsborough, que tanto marcou o clube. Culparam inicialmente os torcedores do Liverpool por aquela tragédia, mas o tempo e a luta dos Reds provaram que as causas do triste ocorrido foram a superlotação, o péssimo estado de conservação do estádio e a decisão equivocada do responsável pela segurança na partida, que abriu uma entrada de forma indevida e arriscada que resultou na morte direta das pessoas.

Torcida do Liverpool, que emocionou o mundo ao homenagear Cristiano Ronaldo, lenda do maior rival que vive drama pessoal
Torcida do Liverpool, que emocionou o mundo ao homenagear Cristiano Ronaldo, lenda do maior rival que vive drama pessoal Getty

 

Nos anos 80, com o hooliganismo vivendo um período bastante acentuado, a torcida do Liverpool ganhou fama de violenta. A Batalha de Heysel em 1985, na Bélgica, manchou a imagem do futebol inglês e, sobretudo, dos Reds. Um saldo de 39 mortos e 600 feridos na final da Copa dos Campeões entre Liverpool e Juventus resultou na exclusão dos clubes da Inglaterra de todas as competições continentais por cinco anos. Quando quatro anos depois aconteceu a tragédia de Hillsborough ficou fácil para quase todos, especialmente o governo, apontar o dedo e a culpa para os torcedores do Liverpool, sobretudo os que gostam de bebidas alcoólicas. Naquela época, satanizar o Liverpool era algo comum dentro e fora do Reino Unido. E o clube, que era dominante na Inglaterra em termos de títulos nacionais e internacionais, despertava um ódio natural nos rivais por conta de seu sucesso.

O cenário mudou completamente na era Premier League, que começou na temporada 1992/1993. O Manchester United criou um império e ultrapassou incrivelmente o Liverpool em títulos ingleses, vivendo seu auge na longa e gloriosa gestão de Sir Alex Ferguson. O Campeonato Inglês e seus estádios viraram modelo para o mundo. O respeito pelo esporte e pelo jogo, as ações e as preocupações da liga mais globalizada do mundo, a abertura do mercado para jogadores, treinadores e empresários uma série de fatores, etc. A Premier League se transformou em um grande sucesso, mas relegou o Liverpool a um segundo plano durante muito tempo. O antigo rei da Inglaterra viveu nesse período muito mais da paixão de sua torcida do que pelos títulos. A tão sonhada taça da Premier League veio apenas em 2020. Foram 30 anos de espera vendo Ferguson, Wenger, Mourinho, Guardiola e outros doutrinando à frente de outras camisas. Uma torcida orgulhosa passou a ser sofrida, e aquele tropeço de Gerrard em um duelo decisivo contra o Chelsea retrata bem a frustração de gerações de Reds. “Modinhas” ridicularizando o “Loserpool”. Meme sem fim.  


O Liverpool conseguiu brilhar aqui e ali em copas nas últimas três décadas, fez alguns milagres, como o de Istambul, mas ser o maior protagonista de seu reino parecia algo impossível até a chegada de Klopp. Sempre tinha alguém com mais dinheiro ou mais craques ou mais treinador para superá-lo. Nem fazendo incríveis 97 pontos no campeonato era possível conquistá-lo. Certamente o Liverpool atual, assim como o de 2019, vai superar a casa dos 90 pontos na Premier League, mas talvez isso não basta para superar o City de Guardiola. Só que um troféu bem valioso já está garantido para os Reds nesta temporada, e não me refiro à Copa da Liga (vencida contra o Chelsea), à Copa da Inglaterra (haverá outra final contra o Chelsea) ou à Champions League (fará semifinal contra o Villarreal). Guardiola, o técnico mais influente deste século, reconheceu o tamanho do adversário.

“O Liverpool é uma das melhores equipes da história do futebol, uma das melhores de todos os tempos”, afirmou agora o treinador espanhol, um defensor do bom futebol. Ele não conseguiu vencer o Liverpool nesta temporada e acabou eliminado da FA Cup pelo time de Klopp, contra quem leva desvantagem no confronto direto. Guardiola pode até ser campeão da Premier League (basta vencer seus jogos) e ganhar enfim a Champions sem Messi, Xavi e Iniesta, mas ele admira ao extremo o que o Liverpool pratica. Não só pelos resultados (o técnico do City acredita que os Reds vão ganhar todos os jogos até o fim da Premier League), mas sim pelo desempenho, pela atratividade, pelo entretenimento, pela beleza.

Assim como muita gente, eu acho “You’ll Never Walk Alone” o melhor hino de um clube ou uma torcida. É uma canção composta em 1945, consagrada em 1963 por Gerry & The Pacemakers, cantada com o coração pelos Reds e que inspira muitas pessoas mesmo fora do esporte, sendo um ótimo combustível para superar momentos difíceis. Nesta semana, Cristiano Ronaldo teve que enfrentar uma tragédia pessoal (eu também passei pela perda de um bebê com a mãe dos meus filhos e entendo o que ele está passando). Mesmo sendo uma lenda do Manchester United, é momento para ele entender bem o significado e o tamanho da música que embala o Liverpool, desde já seu rival mais querido. O craque português agradeceu em suas mídias sociais a tocante homenagem que ele recebeu em Anfield. 

Não dá para ficar insensível diante de tudo o que o Liverpool tem proporcionado dentro e fora de campo. CR7 e Guardiola que o digam!

 

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As várias razões que fizeram o Liverpool ser o clube mais legal do mundo atualmente

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Espanha e Inglaterra dominam os interclubes europeus nos últimos 10 anos com estilos diferentes

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Semifinal da Champions League com Liverpool, Manchester City, Real Madrid e Villarreal. Apenas o Submarino Amarelo é uma surpresa nessa tropa de elite. Mas o Villarreal é espanhol e faz parte também do domínio que seu país impõe nos torneios interclubes europeus nos últimos anos juntamente com os ingleses.   

A badalada Champions tem visto uma hegemonia, até certo ponto compreensível, dos times da Premier League e de LaLiga. Desde a temporada 2009/2010, quando José Mourinho (que alguns dizem estar ultrapassado) venceu a Champions com a Inter de Milão, só o Bayern (duas vezes) quebrou o império de espanhóis e ingleses no mais nobre interclubes europeu. O poderoso time de Munique, com Lewandowski, Nagelsmann e tudo mais, protagonizou a maior zebra da temporada ao ser eliminado pelo Villarreal. Só que esse Villarreal do copeiro Unai Emery ganhou a edição passada da Liga Europa superando na final o gigante Manchester United.   

Unai Emery, que eliminou o Bayern com o Villarreal, tem feito milagres na Liga Europa e na Champions League dirigindo times espanhóis
Unai Emery, que eliminou o Bayern com o Villarreal, tem feito milagres na Liga Europa e na Champions League dirigindo times espanhóis EFE/RONALD WITTEK

Na Liga Europa, só dá time espanhol e inglês levantando o troféu desde aquele Porto de André Villas-Boas que tinha Helton no gol e Hulk e Falcao no ataque. Isso foi em 2011! Nesta edição do segundo interclubes da Europa, o favorito Barcelona caiu nas quartas, mas o West Ham está nas semifinais e pode manter o trono inglês . Parece que sobrou mesmo a Conference League para os demais países terem uma chance mais real de título (não chegou nenhum time espanhol nas quartas da Conference, porém o Leicester alcançou a semifinal representando a Inglaterra). Não dá para negar, de qualquer forma, esse reinado espanhol e inglês na Europa. As razões que explicam isso é que devem ser questionadas agora.

O futebol espanhol é sinônimo de qualidade já há vários anos, desenvolveu sobretudo o chamado jogo de posição, aposta muito na posse de bola e na organização tática nas equipes. Exportou Guardiola, que hoje está fazendo muito sucesso na Inglaterra. Mas vimos um duelo de estilos (que até se misturaram no fim) no embate entre Manchester City e Atlético de Madri. Simeone é famoso por montar um rígido sistema defensivo e travou bastante a equipe do Guardiola, só que o final do confronto de 180 minutos apontou o Atlético sufocando o normalmente dominante City. O time colchonero parecia um pouco inglês ali, e a equipe que lidera a Premier League lembrou o Atlético se defendendo.  

Há um intercâmbio maior de futebol com a globalização e vemos equipes de países diferentes jogando muitas vezes de forma parecida. E nem todos em um país atuam no mesmo estilo. O Atlético do Simeone é bem diferente do Real Madrid de Ancelotti. Assim como o Liverpool de Klopp é mais objetivo e direto do que o Manchester City de Guardiola (esse duelo aconteceu na Premier League no mais alto nível e se repetirá na Copa da Inglaterra e talvez na final da Champions League). Os times de Unai Emery de investimento mediano se comportam de maneira similar e assim ele tem feito sucesso sobretudo na Liga Europa, onde a questão econômica não faz, normalmente, tanta diferença. Da mesma forma, o estilo de Guardiola não muda quase nunca, não importa em qual país ou clube ele trabalhe.

Dizer que os times da Premier League dominam a Europa (junto com a esquadra espanhola) apenas por causa do dinheiro é simplista demais. Claro que o poder da grana ajuda a contratar grandes jogadores e treinadores, mas há trabalhos bons e ruins na Inglaterra também. Nem sempre o dinheiro é bem aplicado, nem sempre dá liga nos times. A Inglaterra nunca teve Messi em seu campeonato e durante muitos anos ficou sem Cristiano Ronaldo nestes últimos dez anos de imposição do país no continente. Eu costumo comparar a América do Sul com a Europa dizendo que a Premier League é o Brasileiro e que Real Madrid e Barcelona são Boca e River. Temos uma liga com muitos times competitivos na Inglaterra e no Brasil e temos um campeonato nacional forte na Espanha e na Argentina com duas potências bem destacadas e alguns outros clubes de menor investimento muito bem treinados.   


Champions: Villarreal faz festa absurda no vestiário após eliminar o Bayern de Munique; VEJA

Faz tempo que está difícil a vida de clubes como Ajax e Benfica na Europa em termos de títulos continentais. O mesmo pode ser dito de clubes do leste europeu, isso não é novidade. O problema hoje é que está ficando bem difícil também para a Juventus e os demais italianos, assim como não está simples nem para o milionário PSG (e demais franceses) e para o gigante Bayern de Munique (e outros alemães). Nas estatísticas, normalmente citamos as “cinco principais ligas da Europa” (Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália), mas o fato é que duas dessas estão bem à frente das outras três. É mesmo outro patamar.

 

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Em solidariedade ao Cássio e aos atletas que são ameaçados, um post com mensagens do tipo que recebi

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Delegado detalha ameaças sofridas por esposa de Cássio e explica situação do caso; VEJA



Me senti motivado agora a postar algumas mensagens que recebi nos últimos anos com ameaças. Já precisava dar uma limpada mesmo naquelas caixas de mensagens ocultas que temos em mídias sociais. Resolvi compartilhar algumas dessas ameaças (preservando erros de português e digitação). Dá uma vontade de processar todos esses valentões que vivem se aproveitando da internet para espalhar o terror (como se não fosse crime ameaças em mídias sociais), mas é preciso de tempo e paciência para isso. Eu arquivei tudo e posso ter mais atitude a partir de agora. As leis já punem, sim, quem tem esse tipo de prática, e espero não mais me calar diante de ameaças de morte ou violência. Em solidariedade aos jogadores que são vítimas desse tipo de mensagem, como o Cássio e o Gil, eu vou começar a dar nome aos bois. Chega de apenas bloquear esses criminosos covardes. É hora de ir além e denunciar, só assim mesmo para esse pessoal aprender.

Assim como os jogadores são profissionais e não querem errar dentro de campo, eu também sou pago para realizar meu trabalho e procuro sempre fazer meu melhor. Posso dar uma opinião ou uma informação que desagrade a alguém, mas isso não justifica uma ameaça de violência física ou mesmo de morte. Eu bloqueio quem me ofende e continuarei adotando essa política, mas ameaça vai além disso e pede mesmo uma abordagem diferente. Dei uma conferida nos últimos dias em mensagens ocultas que recebi, sobretudo no Instagram, e é impressionante a quantidade de ameaças pesadas que nem tinha visto. E essas partem, basicamente, porque eu não exaltei um time ou um jogador, porque eu elogiei de alguma forma um rival ou porque dei um palpite para um jogo ou porque simplesmente sou da "imprensa bairrista", da "imprensa clubista", da "imprensa do Eixo" etc.

Cássio durante jogo entre Corinthians e Atlético-MG, pelo Brasileirão
Cássio durante jogo entre Corinthians e Atlético-MG, pelo Brasileirão Rodrigo Coca/Ag Corinthians

Começou mais um Campeonato Brasileiro, o 20º na era dos pontos corridos e possivelmente o último administrado pela CBF, uma vez que que os clubes agora se mostram mais unidos para criar, enfim, uma liga independente. Creio que uma forma de colaborar com o futebol brasileiro nesta nova fase é denunciar mesmo os torcedores valentões. É preciso ser mais rigoroso com as pessoas que passam dos limites e vivem ameaçando (e às vezes agredindo mesmo) com o pretexto de que no futebol pode tudo. Não pode tudo no futebol nem na internet. Chega de impunidade no país e nas redes sociais. Que todos tenham um Campeonato Brasileiro cada vez melhor e cada vez mais livre de violência.

@mauriciore1s

“pau no cu

Vou te matar

respeite o Vitória desgraça

vou te achar”

 

@gabriel91128

“Filho da puta tá dizendo que o grêmio vai decer o sarrafo no flamengo pau nu cu se  tiver em Porto alegre vamos ti caga apau fldaputa”

 

@roma_assis

“Penando ta sua mãe seu fila da puta

Lixo da desgy

Fudidoooooo

Comentarista fudidooooo

Vai morrer hj viado”

 

@junnior_2002

“Seu hipócrita filho da puta

Merece muita porrada seu cuzão

Porrada pra aprender a ser sujeito homem

Hipócrita”

 

@carvalholeonardo_

“Respeite o Vitória.. pau no cu da desgraça

Viado

Vc n perde por esperar... o q essa torcida tá preparando para vc”

 

@igormdias43

“Vc é um lixo de ser humano, quando vc abre a boca só escuto barulho de descarga de tanta merda que sai, com certeza vc esta onde está pq puxou saco de mta gente, pq por mérito nunca será, eu quero q vc vai tomar no centro do seu cu, eu espero nunca te encontrar pq eu só preciso de 5 minutos, 3 eu te deito e os outros 2 eu vou tirar foto dessa sua cara de corno deitada sangrando no asfalto seu filha da puta”


@abraaomendesss

“No dia que você pisar seus pés em Salvador eu vou te procurar!”

 

 

As mensagens acima foram enviadas para meu Instagram (@rodrigobuenobubu) e não eram públicas, mas eu já recebi mensagens do tipo no Twitter de forma bem mais escancarada. Também já recebi e-mails (algo cada vez menos comum) com ameaças ao longo da minha carreira de 27 anos como jornalista. Há muitas outras mensagens do tipo que arquivei. Na medida em que eu localizar essas mensagens, eu as postarei aqui também. E tentarei sempre atualizar este post com as ameaças que eu receber a partir de agora. Será meu espaço para denunciar os "valentões". 


MENSAGEM RECEBIDA NO FACEBOOK

Daniel Junio Maia

"Aí babaca

Já vim dá o papo

Vc disse o que do Clube Atlético Mineiro??

Repete Aki no chat pfv

Pq aí dps perde a vida e fica sem saber pq, preze pela sua vida se retrate pedindo desculpas"



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Boa fase de Alemanha, Argentina, Brasil, Espanha e Holanda torna a Copa-2022 a mais aberta da história

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

O Brasil está bem mais animado agora com sua seleção. E o mesmo pode ser dito de Alemanha, Argentina, Espanha e Holanda. Considerando que Bélgica, França, Inglaterra e Portugal possuem bons elencos tecnicamente e continuando gerando confiança em seus torcedores, teremos uma Copa neste ano com pelo menos nove seleções em condição de ser campeã mundial. Seriam dez fortes candidatas se tivéssemos a Itália na disputa, mas Croácia (atual vice do mundo), Dinamarca (Eriksen voltou com gols), Senegal (melhor seleção africana da atualidade) e Suíça (barrou a Itália) podem sonhar pelo menos com semifinal.

Há algumas dessas equipes bem cotadas que apostam em trabalho de longo prazo, casos de Argentina e Brasil. Lionel Scaloni está no comando da equipe de Messi desde 2018, mas já era auxiliar do time em 2017. Superou a desconfiança inicial e a concorrência com nomes bem mais badalados para estabelecer uma marca de 31 jogos sem perder, com direito a um título histórico da Copa América no Maracanã diante do Brasil. A seleção brasileira, por sua vez, evoluiu desde essa derrota em casa e desfruta da boa fase de uma série de jogadores, sobretudo os de beirada de campo que conquistaram espaço na seleção (Antony, Raphinha e Vinícius Júnior) e que mudaram a cara engessada que o time de Tite mostrava. O Brasil está mais ofensivo, perigoso e letal, não está mais dependente de Neymar como parecia estar na Copa de 2018.

Deschamps vai tentar o bicampeonato mundial genuíno com Benzema, mas a concorrência para a França agora é maior e mais forte
Deschamps vai tentar o bicampeonato mundial genuíno com Benzema, mas a concorrência para a França agora é maior e mais forte EFE/Yoan Valat

A França também manteve apostou na manutenção do treinador, embora Deschamps tenha lidado com críticas ao longo deste último ciclo. Ele venceu o último Mundial com time relativamente jovem que jogou muitas vezes no contra-ataque. A base de 2018 foi mantida, mas Benzema, em fase espetacular, voltou a servir a seleção francesa. Isso torna a equipe, campeão atual da Nations League, ainda mais talentosa e capaz de tentar o bicampeonato genuíno, algo que só Itália (34/38) e Brasil (58/62) conseguiram. A Bélgica conserva Roberto Martínez como seu técnico desde 2016, e ele foi mesmo quem mais esteve perto de ser campeão com o time. A mais talentosa geração belga, que liderou o ranking da Fifa durante muitos anos, pode ter seu canto do cisne no Qatar. De Bruyne voltou a jogar bem e pode ser uma dos astros da Copa.

Portugal é outra seleção cheia de qualidades individuais que tem o mesmo treinador há muito tempo. Fernando Santos vem sendo questionado por não tirar o máximo de sua equipe e por ser um tanto quanto conservador. Mas ele mudou o time com coragem nas eliminatórias, puxou Danilo para a defesa que estava bastante desfalcada e apostou em novos nomes, como Otávio, Diogo Costa, Matheus Nunes e Vitinha. A seleção portuguesa não está mais tão dependente de Cristiano Ronaldo ou de outros craques. A Espanha é dirigida por Luis Enrique desde o fim da Copa de 2018. Ele tratou de fazer uma tremenda renovação na equipe, dando vez a Pedri, Gavi, Dani Olmo, Unai Simón, Eric García e Ferran Torres, entre outros jogadores que atuaram pela equipe com idade olímpica. A Roja fez um papel bem digno na Eurocopa e foi o time que tirou a invencibilidade recorde da Itália, perdendo a final da Nations League para a França tendo jogador melhor.   

Para provar que a grande maioria das seleções favoritas ao título no Qatar possuem trabalhos de médio e longo prazo, Gareth Southgate está no cargo desde 2016, e isso após trabalhar na seleção sub-21 (que forneceu bons nomes para a forte seleção principal). Ele levou a Inglaterra à semifinal do Mundial pela primeira vez desde 1990 e bateu na trave para conquistar a Eurocopa do ano passado em Wembley. Os ingleses projetaram sucesso com Southgate justamente na Copa deste ano, colheram de certa forma mais do que o esperado na Rússia em 2018.

Alemanha e Holanda, que se enfrentaram em Amsterdã e fizeram um movimentado 1 a 1 (como manda a rivalidade entre as duas seleções), ficaram no pote 2, mas dão sinais fortes de serão bem competitiva no Mundial, diferentemente do que indicavam alguns meses atrás. Hansi Flick assumiu após a saída de Joachim Löw (demorou para sair, essa é a verdade) e vai completar um ano no cargo apenas em agosto. O ex-treinador do Bayern deu nova cara para a Alemanha, injetou intensidade e ofensividade na equipe, resgatou nomes importantes, como Thomas Müller, e enfileirou vitórias até a igualdade desta semana fora de casa em amistoso contra a Holanda. O time que perdeu em casa para a Macedônia do Norte ficou no passado, a Alemanha vem bem parecida com o Bayern de Munique dos últimos tempos, mas sem Lewandowski.

A Holanda, que não se classificou para a Copa da Rússia, estreou nas eliminatórias perdendo da Turquia, o que ajudou a minar o trabalho do técnico Frank de Boer. Ele caiu de vez após a triste eliminação na Eurocopa diante da República Tcheca. Van Gaal assumiu em agosto (assim como Hansi Flick) e iniciou um trabalho de recuperação. O veterano treinador, que saiu invicto da Copa de 2014 no Brasil, classificou a equipe sem precisar passar por repescagem, com direito a goleada de 6 a 1 naquela mesma Turquia. Van Gaal ainda não perdeu com a Laranja Mecânica desde que deixou sua aposentadoria (já são nove partidas).

No sorteio dos grupos da Copa do Qatar, teremos possivelmente dois “Grupos da Morte”, quase que seguramente as chaves com Alemanha e Holanda. Pense em outro Mundial com tantos reais candidatos ao título. Na Copa de 2018, na Rússia, eram “apenas” seis postulantes de verdade: Alemanha, Bélgica, Brasil, Espanha, França e Portugal, mas é bom lembrar que os espanhóis chegaram em crise e que os alemães já davam sinais de desgaste com Löw. A Inglaterra fazia renovação e não esperava ir tão longe, como já disse anteriormente. Agora, no ano da Copa, temos nove seleções fortes vivendo bons momentos e ambicionando mesmo o título. Não houve outro Mundial com tantos postulantes. Qatar promete!

 

Hans-Dieter Flick, Lionel Scaloni, Tite, Luis Enrique e Louis van Gaal
Hans-Dieter Flick, Lionel Scaloni, Tite, Luis Enrique e Louis van Gaal Matthias Hangst/Getty Images | Getty Ima
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Boa fase de Alemanha, Argentina, Brasil, Espanha e Holanda torna a Copa-2022 a mais aberta da história

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Pátria da defesa, da tática e dos vexames, a Itália sofreu a sua 'Tragédia do Sarriá' em Palermo

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

A Squadra Azzurra chocou o mundo ao perder nos acréscimos em casa para a Macedônia do Norte por 1 a 0 e ficar assim de fora da segunda Copa do Mundo seguida. Não preciso falar aqui da tradição da Itália no futebol, mas vou falar aqui que vexames dos mais diversos fazem parte sim da tradição do calcio, como é chamado o futebol pelos italianos. Nunca antes a Itália havia perdido uma partida em casa pelo qualificatório para o Mundial, começo por aí. Agora, são 48 vitórias, 11 empates e 1 derrota. Só Brasil e Espanha estão invictas agora em casa por eliminatórias.

Se pegarmos as grandes zebras da história do futebol, impossível não citar a eliminação da Azzurra na Copa de 1966 diante da Coreia do Norte. Torcedores revoltados com a derrota por 1 a 0, gol de Pak Doo-ik, atiraram frutas no ônibus dos jogadores na volta da Itália para casa. Esse gol talvez fosse o mais doído sofrido pela Itália até este chute de fora da área de Trajkovski. Trágico gol que o gigante Donnarumma não conseguiu deter mesmo no estádio Renzo Barbera, em Palermo, uma espécie de caldeirão italiano onde o apoio à Azzurra é total e onde nunca a seleção da casa havia sido batida. O temor de vaias e preferências clubísticas por parte de alguns torcedores de cidades mais célebres do país, como Milão, ajudaram na escolha pelo alçapão de Palermo. Mas nem esse fato casa salvou a Itália do vexame.

'Vergonha histórica' e possível permanência de Mancini: Leonardo Bertozzi analisa ausência da Itália na Copa do Mundo de 2022

Desde que foi tetracampeã mundial, em 2006, a Azzurra fez feio nas Copas de 2010 e 2014, quando não passou da fase de grupos. E fez pior ainda nas eliminatórias para os Mundiais de 2018 e 2022. Se para a Copa da Rússia havia a desculpa de que a geração não era tão boa e que o técnico Gian Piero Ventura cometeu algumas atrocidades, agora Roberto Mancini vinha carregado de elogios e com o título da Eurocopa no ano passado, promovendo o que seria o renascimento do futebol italiano, um jogo mais leve e ofensivo, uma retomada em alto nível do país do catenaccio. A cara do calcio vinha mesmo mudando com os emergentes times de Atalanta e Sassuolo, mas talvez isso seja agora repensado diante do fracasso da seleção nas eliminatórias e a possível saída de Mancini do cargo. Guardadas as devidas proporções, talvez a Itália experimente agora o que o Brasil viu após a “Tragédia do Sarriá”, quando o futebol bonito de Telê perdeu por 3 a 2 da Azzurra e despertou muito o resultadismo no “país do futebol”.  

O calcio de fato vive momentos de reflexão. Desde 2010 nenhum clube italiano conquista um título continental. A última vez foi com a Inter de Mourinho na Champions. E não vai ser fácil para Mourinho quebrar esse tabu ganhando a Conference League com a Roma. Também não será moleza para a Atalanta de Gasperini ganhar a Liga Europa, que tem o Barcelona como maior favorito. Será que apenas a questão financeira pesa contra os times da Itália nos torneios europeus? Outras ligas nacionais, sobretudo as de Inglaterra, Espanha e Alemanha, cresceram em vários sentidos e tomaram o espaço que nos anos 80 e 90 cabia bastante à Serie A italiana, na época o grande Eldorado do futebol mundial.

A seleção italiana continua sendo quase que totalmente uma equipe local, com a grande maioria dos atletas atuando no próprio país. Dos convocados de Mancini para este fatídico playoff de repescagem, só Donnarumma e Verratti (Paris Saint-Germain), Emerson Palmieri (Lyon) e Jorginho (Chelsea) atuam no exterior. Aliás está aumentando cada vez mais o número de jogadores nascidos no Brasil defendendo a Azzurra. O atacante João Pedro, do Cagliari, estreou aos 30 anos exatamente nesse jogo trágico contra a Macedônia do Norte. Os zagueiros Luiz Felipe, da Lazio, e Rafael Tolói, da Atalanta, foram chamados por Mancini, embora o ex-são-paulino tenha ficado de fora da última lista. Seriam jogadores realmente de alto nível para defender uma seleção de ponta do futebol mundial? Acabaram servindo para a Itália porque o Brasil não contava com eles e porque existe de fato uma crise técnica no calcio. Não há craques na Azzurra!

Trajkovski comemora após marcar para a Macedônia do Norte contra a Itália, que ficou de mais uma Copa do Mundo
Trajkovski comemora após marcar para a Macedônia do Norte contra a Itália, que ficou de mais uma Copa do Mundo EFE/EPA/CARMELO IMBESI


Historicamente, a seleção italiana aproveita bastante os chamados “oriundi”, jogadores nascidos em outros países. Vittorio Pozzo brigou bastante para importar na década de 30 vários jogadores sul-americanos, como Luis Monti, Michele Andreolo, Attilio Demaría, Raimundo Orsi, Enrique Guaita e Anfilogino Guarisi (Filó). A Itália ganhou duas edições da Copa do Mundo e uma medalha de ouro olímpica com força estrangeira e sob a marca do fascismo. Pozzo foi um grande técnico e líder, porém deixou o futebol após a Segunda Guerra por conta de sua ligação com o regime de Mussolini. Na Copa de 1938, o treinador perfilava com os atletas da seleção italiana fazendo inclusive saudação fascista. Essa tradição de buscar jogadores no exterior continuou em 1982 com Gentile e em 2006 com Camoranesi e Perrotta.

Isso significa dizer que a Itália sempre foi campeã mundial com pelo menos um jogador que não nasceu em território italiano. Mesmo antes da globalização, essa política italiana despertava para a dificuldade do país de produzir craques em grande quantidade. Sempre foi preciso apelar para um Schiaffino, um Mazzola, um Ghiggia, um Sívori, um Di Matteo, um Dino da Costa, um Maschio ou mesmo um Giuseppe Rossi. Mesmo assim, a Itália ficou fora da Copa do Mundo de 1958, muito antes dos fiascos recentes em eliminatórias. Outra polêmica do calcio diz respeito à manipulação de resultados, algo que respingou até nas duas últimas conquista de Copa do país: em 1982 e em 2006.

A Itália continua exportando muitos treinadores, especialmente por conta dos fortes sistemas defensivos dos italianos, mas outras nações, como Alemanha, Espanha e Portugal, estão roubando do calcio essa primazia de ter os mais respeitados estrategistas do planeta. O sucesso do próprio Mourinho na Itália exemplifica essa mudança, o português é mais amado que muitos dos treinadores locais. Os estádios na Itália, de uma forma geral, também são obsoletos. Não é à toa que a Juventus, com arena nova, construiu recentemente sua maior hegemonia nacional. E que Inter e Milan definem os detalhes para o novo e moderno estádio de Milão. Tudo faz parte do plano da Itália de ser a sede da Eurocopa em 2028 ou em 2032. E tentar receber outra Copa mais à frente.

Fogos, festa e muita comemoração: Macedónia do Norte elimina Itália e torcida vai à loucura; VEJA

Eu sei que o momento é de buscar explicações pontuais para mais um vexame histórico da Itália, como a lesão de Chiesa, a queda de produção de Donnarumma, o pênalti perdido de Jorginho ou a idade avançada de Chiellini, só que os problemas do calcio são muito mais amplos. O processo de renovação do futebol italiano passa por vários fatores. A campanha mágica na Eurocopa do ano passado pode ter ofuscado alguns dos pontos fracos do calcio dentro e fora de campo. Agora, eles deverá ser mais debatidos.

O genial Cruyff disse certa vez que a Itália nunca poderia vencer a Holanda, mas que a Holanda poderia perder da Itália. A lógica dele é que os italianos costumam deixar a bola para o adversário, sobretudo para algumas seleções mais técnicas, e apostar nos rápidos contra-ataques. Só que a Macedônia do Norte teve apenas 34% de posse de bola e deu só quatro finalizações, duas certas. Parafraseando Cruyff, a Macedônia do Norte não podia vencer a Itália, mas a Itália podia perder da Macedônia do Norte.

 
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Minhas análises dos sorteios na Europa, mas adianto que ingleses podem fazer barba, cabelo e bigode

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Você ficaria muito surpreso se a final da Champions League fosse Manchester City x Liverpool ou Chelsea x Liverpool? Claro que não. São três dos melhores times do mundo hoje e não vão se enfrentar nas quartas de final. Seria impossível ver o West Ham campeão da Europa League? Creio que não, pois o time de David Moyes faz uma ótima temporada e pode ficar com o título continental mesmo pegando um caminho bem duro até a decisão. E o Leicester na Conference League? Também encara um caminho pesado, mas tem boas chances de sucesso também.

Na badalada Champions League, o time de Guardiola pegou o Atlético de Madrid e posa de favorito mesmo, embora não seja moleza derrubar o guerreiro clube de Simeone, sempre uma ameaça para as equipes inglesas com seu estilo aguerrido e feroz na marcação. O Liverpool se deu bem no sorteio e vai encarar o Benfica, que surpreendeu ao eliminar o Ajax mesmo com técnico interino. O Chelsea tem fama de carrasco do Real Madrid, algo que vimos bem na última temporada. Não é nada fácil eliminar o gigante espanhol da Champions, mas os Blues sabem o que fazer.

Antony decisivo! Brasileiro faz, briga e é expulso em vitória do Ajax sobre Feyenoord; ASSISTA

A classificação mais emocionante nas oitavas de final da Liga Europa foi do West Ham. Os Hammers eliminaram simplesmente o Sevilla, o 'pai' da Europa League. E foi com bolhas e emoção: um gol na prorrogação de Yarmolenko, uma voz forte a favor da Ucrânia neste momento de guerra. No sorteio, a equipe londrina deu azar e vai ter que passar por Lyon e, muito possivelmente, o Barcelona para ir à decisão em Sevilha. Só que o campeão da Recopa de 1965, que deu boa sustentação para o título da Inglaterra na Copa de 1966, é um time sólido e forte em seus domínios, contando com uma das mais apaixonadas torcidas da terra da rainha. O West Ham luta por vaga na Champions tanto na Premier League quanto pelo Liga Europa. Dá para ir mais longe.

Bolhas do West Ham continuam firmes e fortes na Liga Europa após a dramática vitória sobre o Sevilla
Bolhas do West Ham continuam firmes e fortes na Liga Europa após a dramática vitória sobre o Sevilla Reprodução ESPN

Na mais nova disputa da Uefa, há ainda alguns clubes de tradição, como Feyenoord, Olympique de Marselha, PSV e Roma, porém o Leicester aposta muitas fichas na Conference League, uma vez que está na metade de baixo da tabela do Inglês e depende do torneio continental para disputar uma competição internacional na próxima temporada. Os Foxes terão que passar pelo bom time do PSV no duelo mais forte das quartas de final. Obtendo sucesso nesta fase, pode pegar a Roma de Mourinho na semifinal. O fato é que a final em Tirana é um objetivo possível para o Leicester, mesmo que Vardy não esteja on fire como em outras temporadas.

Nos últimos dez anos, os clubes da Premier League têm disputado especialmente com as equipes espanholas os títulos continentais. Desde a temporada 2011/2012, sempre o campeão da Liga Europa vem de Inglaterra ou Espanha. Nesta edição, o Barça desponta como o grande favorito ao título do segundo interclubes europeu. Na Champions, apenas os clubes ingleses têm conseguido quebrar o domínio de Real Madrid, Bayern de Munique e Barcelona desde a temporada 2010/11. São dois títulos da Inglaterra nas três últimas edições: Liverpool em 2019 e Chelsea em 2021.

Claro que o fator econômico coloca os clubes ingleses em boa condição de disputar os principais títulos do Velho Continente. Apenas a Premier League continua na disputa dos três interclubes da Uefa. A Espanha não tem mais representante na Conference. O mesmo acontece com a forte Bundesliga. A Serie A italiana e a Ligue 1 francesa estão fora da Champions. O que vemos então neste momento é uma comprovação do poderio dos ingleses, que muitas vezes, ao longo da história, desdenharam de disputas internacionais por terem um calendário nacional bastante puxado e por olharem muito para o próprio umbigo. Isso tem mudado.  

Chelsea bate o Middlesbrough com gols de Lukaku e Ziyech e vai à semi da Copa da Inglaterra; veja

Vamos aqui para uma breve análise dos confrontos definidos pelos sorteios da Champions, da Liga Europa e da Conference, com aquelas diferenciadas chances de classificação de cada time:

CHELSEA (50%) X (50%) REAL MADRID

Na história, são três vitórias dos Blues e dois empates. O Real não sabe ainda o que é vencer o clube azul de Londres. A forte defesa de Thomas Tuchel é um obstáculo para a boa dupla formada por Benzema e Vinícius Júnior (levou só 7 gols em 15 jogos na Champions desde que o técnico alemão assumiu o comando da equipe). Na semifinal da edição passada, o Chelsea já deixou o gigante merengue para trás. Os Blues, apesar do momento tenso com a saída de Roman Abramovich de cena,  passaram sem muito problema pelo Lille nas oitavas (4 a 1 no agregado). Atual detentor do título, está na posição 4 no ranking da Uefa e tem apenas uma derrota na atual edição da Champions. Se Lukaku não está brilhando, Havertz tem crescido muito de produção agora.

Joe Cole, ex-jogador do Chelsea, até festejou o novo encontro com o Real Madrid: “Penso que o Chelsea está feliz. Não mudou muita coisa desde que os dois times se enfrentaram na semifinal da temporada passada. O Chelsea esteve muito confortável. O sorteio poderia ter sido melhor, mas poderia ter sido pior. Eu conheço o Ancelotti, ele chegou e causou impacto. É claro que o Real é uma ameaça, eles têm qualidade. Mas acho que o Chelsea está razoavelmente feliz (por pegar o maior campeão europeu).”

O peso da camisa madridista foi muito bem visto no duelo das oitavas de final contra o Paris Saint-Germain. A remontada épica com um hat-trick de Benzema foi o grande jogo até aqui desta Champions. A classificação veio mesmo sem Casemiro, suspenso, que volta agora nas quartas. Kroos também estava sentindo lesão em meio ao confronto contra o badalado campeão francês. Líder disparado do Espanhol, o Real desfruta do grande momento do seu centroavante francês lendário e de Vini Jr, jovem atacante brasileiro que deve ir para a Copa do Mundo. Quinto no ranking atual da Uefa, o clube que tem 13 taças da Champions/Copa dos Campeões da Europa ainda não empatou na atual edição: são seis vitórias e duas derrotas, uma surprendente para o humilde Sheriff.

A defesa conta com o seguro Courtois e com Alaba, ótimo reforço para esta temporada. Militão se firmou no setor também. Modric está vivendo mais uma vez grande fase e foi decisivo no duelo contra o PSG. Ancelotti, treinador de “La Décima” em 2014, retornou em grande estilo ao clube merengue e tem sido muito importante para a evolução de Vinícius Júnior. O Real, que já chegou ao gol 1000 na Champions, está em melhores condições agora para eliminar o Chelsea do que estava no ano passado.

 

MAN. CITY (70%) X (30%) ATLÉTICO

Após atropelar o Sporting (campeão português) por 5 a 0 fora de casa e se poupar na volta, o time inglês encara o seu multiverso. O Atlético de Simeone não precisa quase nada da bola, marca como um louco e joga de boa de forma reativa e na bola parada. Guardiola já deu seu parecer sobre o perigoso e cascudo adversário: “Eles te impedem de ser quem você é. É a maior qualidade do Atlético. Eles são sempre o que eles são e, pela forma de jogar, você tenta impor seu jogo, mas é muito difícil. Acho que o Atlético avançou em um grupo extremamente difícil. Foram melhores contra o Manchester United nos 180 minutos. Foram fantásticos, especialmente no primeiro jogo em Madri.    

Os dois clubes nunca se enfrentaram pela Champions. E ambos buscam um título inédito com todas as suas forças. O máximo que conseguiram foi o vice-campeonato europeu. Segundo no atual ranking da Uefa, o City voltou a contar com a grande fase de De Bruyne, que se lesionou na final da edição passada. Mahrez, com seis gols, também tem se destacado na Champions. A liderança da Premier League não é mais folgada, já que o Liverpool encostou, porém muita gente ainda coloca o time de azul de Manchester como o que pratica o melhor futebol do mundo na atualidade. Só que o time de Guardiola não é invencível, perdeu duas vezes nesta Champions. E o seu temível ataque parou no Crystal Palace.

Guardiola sente a pressão de vencer uma Champions League após mais de uma década. E de conquistar a Europa pela primeira vez sem Messi, Xavi e Iniesta. Ele já esteve oito vezes na semifinal da Champions, um recorde que compartilha com José Mourinho, mas pode agora se isolar no topo com nove semis. Simeone tem dado muito trabalho, por sua vez, para os poderosos clubes ingleses. O Liverpool de Jürgen Klopp e o Manchester United já sentiram recentemente a força e o coração dos colchoneros. O Atlético, 10º no ranking atual da Uefa, sabe sofrer como poucos times no mundo. Talvez seja a equipe mais resiliente do planeta.

No ataque, João Félix está vivendo enfim um grande momento, o que dá mais chances para o time espanhol ter sucesso. Griezmann voltou ao clube da capital espanhola e já acumula quatro gols na Champions. Oblak não faz a melhor temporada, mas ainda é um dos principais goleiros do mundo. Possível sequência inglesa que pode levar até o título: Manchester United nas oitavas, City nas quartas, Chelsea na semifinal e Liverpool na decisão na França.

O Atlético, único time que foi a três finais do principal interclubes europeu e não saiu com o título, teve um início de temporada abaixo da expectativa, o próprio Simeone foi questionado, mas a equipe dá sinais de recuperação e voltou à briga pelo G4 na Liga. A torcida apaixonada e participativa é uma vantagem em relação ao City. Koke falou sobre o poderoso rival: “Eles são os favoritos. Na temporada passada, estiveram perto do título. Possuem um grande treinador e bons jogadores, jogam um belo futebol, mas nós gostamos de desafios. Estou certo de que nosso técnico vai fazer um bom plano para avançarmos de fase, mas sabemos que não será fácil. Em Madri, diante dos nossos torcedres, teremos a confiança e a força que precisamos para classificar.”  


VILLARREAL (20%) X (80%) BAYERN

Dois confrontos entre eles na história e duas vitórias do gigante de Munique. Certamente é o confronto mais desigual das quartas de final considerando a história e o poderio atual dos times. O Villarreal ocupa a posição 19 no ranking atual da Uefa, enquanto o Bayern é o líder dessa lista. Campeão da Liga Europa, o Submarino Amarelo confia muito no trabalho do copero técnico Unai Emery, especialista no segundo principal interclubes da Europa. Muito pelo trabalho dele o time espanhol conseguiu eliminar a favorita Juventus nas oitavas de final com um 3 a 0.

O Villarreal chegou à fase semifinal da Champions em 2006, mas Riquelme perdeu pênalti que poderia levar o time à final contra o Barcelona. No time atual, um dos destaques é o atacante holandês Danjuma, com cinco gols no nobre torneio. Gerard Moreno, a referência da equipe, está recuperado de lesão e pode ser decisivo. O ex-técnico do Sevilla e do PSG, no entanto, é o craque do clube, cuja cidade tem pouco mais de 50 mil habitantes.

Marcos Senna, embaixador do clube, falou sobre o duelo contra um dos grandes favoritos ao título: “Será um confronto cheio de energia e esperamos desfrutar. Enfrentaremos um dos favoritos. Nosso principal objetivo é nos divertir. Se fizermos isso, podemos avançar de fase. Não podemos ter na cabeça uma mentalidade negativa. Tentaremos frustrar o adversário o melhor que nós pudermos. Respeitamos o rival, eles são um grande time, um dos melhores do mundo, mas vamos com mentalidade vencedora.”

O Bayern demoliu o Salzburg com direito a um 7 a 1, placar bem simbólico. Lewandowski lidera a artilharia da disputa com 12 gols. O polonês é o terceiro maior artilheiro da história da Champions. A equipe da Baviera confia no sétimo título europeu de sua rica história. São sete vitórias e um empate na campanha alemã. O ainda jovem técnico Julian Nagelsmann (34 anos) monta um time bastante ofensivo, atacando muitas vezes com cinco homens e deixando por vezes apenas um zagueiro de origem na defesa. Ele se mostra um interessante sucessor para Hansi Flick.

O poderoso clube de Munique não é derrotado fora de casa na Champions há 22 partidas. Realmente é muito complicada a missão do Villarreal, que foi analisado de forma respeitosa por Nagelsmann: “É o campeão vigente da Liga Europa. Tem um técnico experiente e um time com um estilo muito bem definido. Bater a Juventus por 3 a 0 não é uma tarefa fácil. Nós queremos avançar, mas precisamos primeiro jogar e vencer.” Hasan Salihamidzic, diretor do Bayern, também falou do adversário: “Eu joguei pela Juventus e sei como é duro vencê-la como visitante. Vamos enfrentar um bom time que não deve ser subestimado. Mas nós somos o Bayern e iremos viajar cheios de confiança.”

 

BENFICA (25%) X (75%) LIVERPOOL

Nunca houve empate entre os dois tradicionais times. São seis vitórias dos Reds e quatro triunfos dos Encarnados. O Benfica, que tenta superar a maldição de Béla Guttmann de não vencer mais torneios europeus desde os anos 60 (perdeu as cinco finais continentais que disputou desde 1962), surpreendeu o Ajax ao vencê-lo por 1 a 0 em Amsterdã. Darwin Núñez fez o gol da classificação e já soma quatro tentos no torneio. A equipe de Lisboa dispensou o técnico Jorge Jesus e está sendo dirigido pelo interino Nelson Veríssimo. Na fase de grupos, o Benfica ficou à frente do Barcelona, quee acabou indo para a Liga Europa.

Se o Benfica está apenas na posição 26 no atual ranking da Uefa, o Liverpool, campeão em 2019, é o terceiro colocado na lista da máxima entidade do futebol europeu. Rafa Silva tem sido um dos destaques do time português, mas a grande esperança mesmo é o atacante uruguaio da equipe. Darwin Núñez desperta o interesse de vários outros clubes na Europa. Um momento conturbado do clube lisboeta, com saída do presidente inclusive, não impediu o time de se superar nesta Champions, uma vez que está fora da disputa pelo título nacional. Foi mais longe no nobre torneio europeu do que o rival Sporting, atual campeão português.

Luisão, diretor do Benfica, já fez gol contra o Liverpool e analisou o adversário: “Foi um sorteio duro, desafiadr para nós. Em 2006, nós enfrentamos o Liverpool e eles eram os campeões vigentes. Nós passamos de fase. O Liverpool é um time forte, eles têm vários jogadores de alto nível, na defesa e no ótimo ataque.”

Ainda na briga feroz com o Manchester City pelo título da Premier League, o time de Jürgen Klopp conseguiu se manter bem mesmo quando Mané e Salah estavam servindo as suas seleções na Copa da África. Diferentemente da temporada passada, quando sofreu com várias lesões, especialmente do capitão Van Dijk, o Liverpool chega mais inteiro e completo para a reta final da temporada. Conta também com Anfield como trunfo no mata-mata da disputa, embora tenha perdido a sua partida em casa nas oitavas de final diante da Inter de Milão.

Hexacampeão continental, o Liverpool tem no egípcio Salah sua maior estrela. Ele, que tem brigado pelo posto de melhor jogador do mundo, tem oito gols nesta Champions. Após uma fase de grupos perfeita, os Reds sofreram mais do que o esperado diante da Inter, campeã italiana. Venceu fora de casa, mas levando uma certa pressão em parte do jogo. Com jogadores experientes e cascudos, o Liverpool tem força para decidir jogos eliminatórios.

Klopp conseguiu enfim um título de copa nacional com os Reds, vencendo nos pênaltis o Chelsea na decisão da Copa da Liga da Inglaterra. A luta pelo segundo título da Champions no comando do Liverpool tem a concorrência de outras competições, afinal o clube continua em busca do 20º título inglês e também da Copa da Inglaterra. Caso vença a Premier League, vai igualar o rival Manchester United em títulos ingleses. Caso conquiste mais uma Champions League, vai empatar com o Milan com sete troféus. Hargreaves descreveu a força do Liverpool: “Acho que um time precisa de uma grande defesa para vencer, vimos o que o Tuchel fez com o Chelsea na temporada passada. O Liverpool tem o melhor zagueiro do mundo, Van Dijk, e ele está n seu melhor.”

 

LIGA EUROPA

WEST HAM (50%) X (50%) LYON

EINTRACHT FRANKFURT (30%) X (70%) BARCELONA

LEIPZIG (50%) X (50%) ATALANTA

BRAGA (40%) X (60%) RANGERS

 

CONFERENCE LEAGUE

LEICESTER (50%) X (50%) PSV

BODO/GLIMT (40%) X (60%) ROMA

FEYENOORD (60%) X (40%) SLAVIA PRAGA

OLYMPIQUE DE MARSELHA (70%) X (30%) PAOK

 

 

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Minhas análises dos sorteios na Europa, mas adianto que ingleses podem fazer barba, cabelo e bigode

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'Geração Sofascore' falha ao ignorar peso de camisa e sofre com o próprio Sofascore no Real x PSG

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Senta que lá vem polemiquinha, coleguinha. O jogo mais comentado da temporada até aqui ainda não acabou e será debatido, eu aposto, por muito tempo ainda, inclusive na Copa do Mundo. Muita gente rotulou que o endinheirado Paris Saint-Germain perdeu de virada para o Real Madrid e foi eliminado da Champions League, de forma bastante doída, porque seus três principais astros não marcam, não voltam, não ajudam, não se aplicam devidamente e que, dessa forma, não há como uma equipe vencer hoje em dia no futebol. Mas será que foi isso mesmo? Será que o badalado Sofascore confirma mesmo isso?

Para quem não sabe, o Sofascore é um famoso site com muitos dados e estatísticas, mapas de calor e alguns outros recursos para acompanhar os jogos. Não é o único do tipo, claro, mas muita gente (incluindo jornalistas especializados) utiliza os números do Sofascore para explicar o que aconteceu em uma partida, para julgar a performance dos atletas e por aí vai. Desde que o esporte começou, há reflexões e tentativas de entender as derrotas. É uma eterna busca para achar os vilões, os responsáveis pelos fracassos. Só que, com o avanço da tecnologia, da internet e das novas mídias, nunca tivemos tantas ferramentas para analisar o esporte. O Sofascore e os “power rankings” da vida ganharam bastante notoriedade nos últimos tempos explorando isso. Pena que eles ainda não medem e calculam o peso da camisa do Real nem a pressão sobre o adversário e o árbitro no Santiago Bernabéu.

Eu li outro dia, não sei aonde, esse termo “Geração Sofascore”. Era uma forma pejorativa de se referir a quem usa apenas os números e as estatísticas para comentar futebol. Tem gente que parece mesmo ter uma tara maior pela “numeralha” do que pelo próprio jogo em si. De repente nem vê o jogo direito, mas pega depois as estatísticas e lacra em cima disso. Digamos que é uma forma mais moderninha de ser resultadista. O PSG dominou o Real Madrid em 75% do confronto e perdeu muito por conta de falhas individuais (há quem culpe Donnarumma, Marquinhos ou mesmo o árbitro holandês Danny Makkelie). Mas a narrativa mais bacana e midiática é dizer mesmo que o estelar time francês não funcionou porque Neymar, Mbappé e Messi apenas viram o jogo.

Benzema festeja gol do Real Madrid contra o PSG de Messi no jogo da Champions em que a camisa pesou demais
Benzema festeja gol do Real Madrid contra o PSG de Messi no jogo da Champions em que a camisa pesou demais GABRIEL BOUYS/AFP via Getty Images

Com toda a calma do mundo, eu fui no Sofascore ver os números dos três craques e comparar com os dos demais jogadores. Eu recomendo que você faça o mesmo, dê uma conferida nos mapas de calor dos atletas envolvidos, as notas que eles acumularam pelos 3 a 1 históricos em Madri. Neymar tocou mais na bola do que Vinícius Júnior, Messi participou mais do jogo do que Benzema, e Mbappé ganhou três vezes mais duelos do que Ascensio. Dos seis homens de frente citados aqui, o que deu mais tackles foi Messi, argentino muito criticado por ter sumido da partida. Veja no mapa de calor que Messi voltou muito mais para o campo de defesa do que o jovem e veloz Vinícius Júnior. Uma série de conclusões podem ser tomadas ali. Você pode escolher, em meio a tantos números e posicionamentos em campo, aquela que preferir para defender sua tese e depois você se consagra.  

As três melhores notas do PSG foram justamente de Mbappé (7,5), Neymar (7,4) e Messi (7,2). Mbappé fez três gols no jogo, dois anulados. Neymar deu a bela assistência para esse gol. As piores notas do Paris Saint-Germain ficaram com Donnarumma, que falhou no primeiro gol, e com Hakimi, badalado lateral-direito que é muito forte no apoio (5,9). O capitão Marquinhos, elogiado zagueiro da equipe, veio logo na sequência como o pior do time, levando 6,1 (ele falhou no terceiro gol, sobretudo, dando a bola para Benzema selar a épica classificação merengue). O único que se salvou um pouco na defesa do time de Pochettino foi Kimpembe, que saiu com uma nota 6,5 na avaliação do Sofascore. Com seu hat-trick, Benzema ficou com nota 9,6, sendo seguido por Modric (8,1). Além dos dois, só Vini Jr teve nota maior (7,7) que Mbappé e Neymar. Valverde, solução encontrada por Carlo Ancelotti para o meio-campo sem Casemiro, foi ligeiramente melhor do que Messi (7,3 x 7,2). E Valverde é conhecido por marcar muito mais do que o genial argentino, que joga na frente.    

Mauricio Pochettino, que até outro dia era considerado um excelente treinador, uma prova do sucesso da escola argentina na Europa e tal, agora é massacrado por ter sido engolido pelo veterano (e subestimado) Ancelotti, que alguns davam como limitado e ultrapassado. A entrada de Rodrygo e Lucas Vázquez no corredor direito surtiu efeito, assim como Camavinga no lugar do craque Kroos, que era dúvida por causa de lesão. Pochettino errou ao não tirar um dos três astros do PSG e reforçar a marcação na reta final do jogo? Potencialmente, sim. Mas, se Donnarumma não tivesse falhado, se Marquinhos não tivesse entregado o ouro ou mesmo se Messi tivesse feito aquele gol de falta no fim, o debate seria outro depois do jogo. Alguém diria que esses talentos podem resolver a qualquer momento, assim como o Messi salvou muitas vezes quase só um Barcelona bagunçado nos últimos anos.

Real Madrid comemora vaga na Champions!


         
     

Quem sentenciou que não é possível jogar com três jogadores “livres” no futebol atual foi Simeone, o técnico argentino que faz sucesso no Atlético de Madri com muita marcação, raça, bola parada e contra-ataque. Segundo ele, com um a menos marcando, tudo bem. Com dois a menos marcando, até daria para levar. Com três a menos marcando, é impossível ter sucesso. Vemos alguns times mais ousados hoje em dia atacando com cinco homens. Nem todo mundo volta no Bayern ou no Manchester City, por exemplo. O Van Gaal quase levou a Holanda ao título da Copa de 2014 (saiu invicto e fazendo grandes partidas) adotando um esquema para deixar Sneijder, Robben e Van Persie livres. A mesma Holanda, um tanto quanto pragmática, quase ganhou a Copa de 2010 também com o time correndo para deixar esses três craques livres e soltos para resolver as partidas (pena que Robben não converteu aquele gol de canhota na final na cara de Casillas).   

Aquele primeiro gol do Real Madrid, polêmico por conta da suposta falta de Benzema no goleirão Donnarumma, mudou completamente a história do jogo e do confronto. Courtois contou após o jogo o que o Real Madrid esperava da partida. O “plano” era fazer um gol, um simples gol qualquer, e depois o Santiago Bernabéu se encarregaria de fazer o outro gol da classificação. Não tinha quase nada de questão tática, era a empolgação, a confiança, o fator casa, a tradição, a torcida, a atmosfera, o espírito, o caráter, a mística, um combo resumido em Camisa! O bom e velho Ancelotti resumiu bem o final da partida, aquela pressão avassaladora do Real Madrid: “Nos últimos 30 minutos, só havia um time em campo”. A questão psicológica, o momento de um time e de outro eram completamente diferentes ali. Mas tem gente que se nega a falar em “camisa”, em fatores subjetivos.   

Há quem diga que a camisa do Real pesa condicionando o juiz a agir favoravelmente ao “Malvadón de Madri”, ao “clube do mal”. Isso entra no pacote da camisa sim, time poderoso normalmente é mais ajudado do que prejudicado por arbitragens em todo o mundo. O maravilhoso e decantado Barcelona de Guardiola ganhou muito com a ajuda da arbitragem, como vimos no famoso jogo da semifinal contra o Chelsea em 2009 na Champions (no ano seguinte, foi eliminado pela Inter de Mourinho mesmo tendo ajuda do juiz, que expulsou de forma exagerada o Thiago Motta). Mas camisa pesada vai muito além de ganhar no apito. Havia a clara sensação no final do jogo no Santiago Bernabéu que o Real viraria, que havia um gigante de um lado e no outro canto acuado tinha um time sentindo demais, acovardado, apequenado. História e mística nem sempre ganham jogos e campeonatos, mas algumas vezes, em algumas situações, a camisa decide, pesa muito mesmo. Sofascore e “power rankings” não conseguem medir isso direito, mas quem vê e, sobretudo, sente o jogo sabe que isso existe.     

Eu não escrevo este post para satanizar os números e as análises mais profundas e modinhas do futebol. Eu também uso os Optas da vida em transmissões e programas, também leio The Athletics pelo mundo, mas não vejo sempre essas fontes e informações como a verdade absoluta de tudo nem fecho os olhos para outros fatores importantes e subjetivos que acontecem nos jogos. Seria muito fácil ficar dando RT em tudo que é estatística e mapa de calor do futebol mundial para posar de professor da bola, de dono da verdade, de mestre estatístico, de cara que sabe exatamente por que se ganha e por que se perde no mais popular dos esportes.

“O futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais do que isso”, já dizia o sábio Bill Shankly. Eu termino aqui com uma diferenciada adaptação dessa frase: “O futebol não é uma questão de Sofascore ou power ranking, é muito mais do que isso.”

 

Messi
Messi Sofascore

Asensio
Asensio Sofascore

Mbappé
Mbappé Sofascore

Neymar
Neymar Sofascore

Benzema
Benzema Sofascore
Vini
Vini Sofascore
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Relato atual do maior torcedor do Chelsea no Brasil e coluna antiga sobre o Chelsky explicam os Blues

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Preferi escrever sobre o Chelsea justamente neste domingo por uma série de questões sentimentais. Nos últimos dias, vimos uma série de notícias sobre os Blues por conta da anunciada venda do clube. Muitas especulações sobre o futuro do time pós-Roman Abramovich, algumas brincadeiras com o passado não tão glorioso da instituição, várias reflexões sobre investimentos vultosos no futebol. A revolução econômica do futebol neste século passa muito pela história de sucesso do “Chelsky”.

No dia 14 de setembro de 2003, eu publiquei na Folha de S. Paulo, na minha saudosa coluna “Futebol no Mundo”, um artigo apresentando a aquisição do Chelsea por parte de um bilionário russo cujas intenções não eram bem claras. Mas estava muito nítido que o time mais azul de Londres passaria a fazer barulho na Inglaterra e viraria uma referência global no esporte. Com uma grande injeção de dinheiro, o Chelsea contratou excelentes atletas e treinadores, acumulando troféus e se transformando no primeiro clube de Londres a conquistar a badalada Champions League.

Foi exatamente naquela temporada 2003/2004, a primeira de Abramovich nos Blues, que passei a comentar com regularidade a Premier League no Brasil, quase sempre ao lado do amigo Paulo Andrade, que chegava ali à ESPN para virar “a voz do futebol inglês” no país. Eu estive totalmente envolvido então (são quase 20 anos) com a metamorfose pela qual passou o Chelsea. Pude comprovar a ascensão meteórica de José Mourinho (de quem ainda sou um grande fã), muito pelo impacto que ele causou na sua chegada ao Chelsea, desafiando o império de Sir Alex Ferguson e, em menor grau, de Arsène Wenger. O “Chelsky”, como descrevi naquela minha coluna marcante de 2003, deve ser visto como um case de sucesso. Foi um marco tão importante no esporte que inspirou o fair play financeiro no futebol europeu.

Segundo algumas pesquisas com mídias sociais, o Chelsea seria hoje o time estrangeiro mais popular no Brasil, algo impensável no século passado, quando pouco contato tínhamos com o futebol britânico aqui no país. O Campeonato Italiano dominava as transmissões na TV, especialmente na sua era dourada nos anos 80 e 90, e os dois gigantes espanhóis já geravam bastante interesse pelos seus craques. Havia um preconceito com o futebol inglês, associado à violência, ao hooliganismo, ao jogo físico e direto (kick and rush), ao chuveirinho, a uma certa soberba mesmo com poucos resultados expressivos, a um jogo chato e feio. Só que existia também um respeito internacional com algumas camisas tradicionais, notadamente Arsenal, Liverpool e Manchester United, até hoje os maiores campeões ingleses.

O time do Chelsea, atual campeão mundial e europeu, deu à sua orgulhosa torcida grandes títulos e estrelas neste século
O time do Chelsea, atual campeão mundial e europeu, deu à sua orgulhosa torcida grandes títulos e estrelas neste século Sebastian Frej/MB Media/Getty Images


O Chelsea foi durante muito tempo coadjuvante nessa época pouco global do futebol inglês. Isso significa dizer que quase ninguém o conhecia a fundo no Brasil. Uma exceção é o jornalista Antonio Seidl, com quem tive o prazer de conviver na redação da Folha no meio da década de 90. Em 1995, ele me convocou para um jogo do time do jornal contra um colégio britânico de São Paulo. A partida terminou 3 a 3, e eu fiz um hat-trick perfeito, um gol de direita, um de esquerda e o outro de cabeça, o que foi um orgulho para mim na época diante de uma forte zaga inglesa. Seidl, mais do que um fiel torcedor dos Blues, vivencia o clube de verdade, carrega seu espírito há décadas mesmo vivendo no Brasil, entende o futebol inglês como poucos. Uma paixão que nasceu antes de internet, videogame, TVs a cabo e streaming. Seidl não é nada modinha, ele personifica a tradição do Chelsea.

Comentei a goleada de 4 a 0 dos Blues no Burnley neste sábado e troquei mensagens com o Seidl sobre este momento importante do Chelsea, que acaba de ser campeão do mundo e que está prestes a ser negociado com algum outro bilionário estrangeiro. Meu velho amigo azul aceitou escrever algumas palavras sobre sua relação umbilical com o clube de um bairro londrino de elite que agora é tão popular no planeta. Seidl, que morou muito tempo em Londres, é autor do livro “O beijo na calçada – crônicas extraordinárias de um repórter ordinário”, uma obra que trata também de futebol inglês, da chegada pioneira de Ardiles e Villa à Terra da Rainha (ele estava no mesmo avião dos argentinos), de como o Watford salvou a vida de Elton John e até mesmo do baile que Stanley Matthews deu no Nilton Santos em Wembley.

Vou postar aqui abaixo o texto que o gentleman Seidl me enviou sobre o Chelsea. No fim, colocarei a reprodução daquela minha coluna profética de 2003 sobre o “Chelsky”. Creio que são leituras diferenciadas e curiosas não apenas para quem gosta dos Blues. Sempre revelei que meu time inglês favorito é o Liverpool, mas o clube que mais comentei jogos na TV imagino ser mesmo o Chelsea. E costumo dar sorte ao clube, as torcidas dos Blues no país costumam me ver como um amuleto e pedem sempre que eu repita a célebre frase sobre o incansável volante do time: “70% do planeta é coberto por água, o resto é coberto pelo Kanté.”

Desfrute dos textos abaixo assim como você certamente desfrutou de algum jogo histórico (mesmo que pela televisão) em Stamford Bridge, um estádio raiz na endinheirada Premier League!

DA BEIRA DO ABISMO AO TOPO DO MUNDO

(texto de Antonio Carlos Seidl)

Minha história com o Chelsea começou no dia 16 de setembro de 1978; 25 anos antes da era Abramovich. Recém-chegado a Londres para cursar um mestrado na London School of Economics, aproveitei uma rara tarde ensolarada de sábado para ter meu primeiro contato com os Blues, de quem muito ouvira falar nas entusiasmadas histórias do futebol inglês contadas por um amigo, o jornalista José Inácio Werneck, um dos pioneiros das transmissões da ESPN para o Brasil. Ele morou no Royal Borough of Kensington e Chelsea entre os anos 60 e 70, e vibrou com as conquistas do Chelsea da FA Cup, em 1970, e da Cup Winners Cup, a Recopa europeia, em 1971, numa heróica vitória por 2 a 1 na finalíssima, em Pireu (Atenas), com um gol de Peter Osgood, o Ossie, um dos maiores ídolos do clube de todos os tempos, sobre o então hexacampeão europeu, o Real Madrid, de Di Stéfano e Puskás. A minha estreia no ainda acanhado Stamford Bridge, com um curioso estacionamento atrás de um dos gols, não foi nada alvissareira: o Chelsea foi impiedosamente massacrado por 4 a 0 pelo Manchester City; nosso capitão Ray Wilkins, que viria a brilhar no Manchester United e na seleção inglesa, na época um jovem promissor, foi expulso de campo, e o Chelsea somou sua quarta derrota seguida nos seis primeiros jogos do campeonato, no qual foi rebaixado para segunda divisão. Que estreia! Pé frio? Continuei, porém, fiel ao Chelsea, que até ali só tinha sido campeão inglês uma única vez, em 1955. Testemunhei uma das piores fases do clube que quase foi à falência. Ninguém podia, então, imaginar que o destino traria os bilhões de um russo para colocar aquele modesto time de bairro no centro do Mundo. Nos anos 80, com a companhia de meu filho Rodrigo, torcedor de nascença dos Blues - morávamos perto do clube, íamos sábado sim, sábado não, com sol (raramente) ou chuva (quase sempre), a Stamford Bridge, mesmo quando estávamos na segunda divisão. Ele torcia, sempre usando a camisa do clube, aplaudindo muito seus ídolos, a dupla de ataque David Speedie e Kerry Dixon, e lamentando os frangos engolidos pelo inseguro Dave Beasant. Estávamos lá em maio de 1988, quando o Chelsea, depois de um empate em 1 a1 com o Liverpool de Kenny Dalglish e John Barnes, caiu para a segundona. Ficamos emocionados com o apoio da torcida, tão apaixonada na vitória quanto na derrota. Na última década do século passado, bem antes do oligarca russo despejar seus bilhões no clube, a redenção do Chelsea teve início quando um controverso magnata da construção civil, Ken Bates, assumiu o controle do clube. Começou a reconstruir Stamford Bridge, adicionando ao clube um moderno hotel - somente a suíte dele tinha uma janela para o campo… Logo trouxe grandes craques para o clube, tais como Ruud Gullit, Glen Hoddle, Gianluca Vialli e Gianfranco Zola, entre outros. Depois de Bates, um torcedor fanático e self-made millionaire, Matthew Harding, morto  precoce e tragicamente em desastre em seu helicóptero, aos 43 anos, em 1996, liderou a reconstrução de Stamford Bridge, que de 25 mil passou a abrigar com conforto cerca de 52 mil torcedores. Rodrigo e eu voltamos para o Brasil em 1992, onze anos antes da era Abramovich, acompanhando nosso time pela TV. Fomos tomando gosto pelo crescimento exponencial do Chelsea nas nossas visitas anuais a Londres, quando assistimos a jogos da Champions League. Sob Abramovich ganhamos tudo que é possível - 21 títulos ao todo em 19 anos. E agora? Como será o Chelsea sem o russo? Polêmico, controverso, odiado por muitos, objeto de críticas no Parlamento Britânico, Abramovich vai deixar saudades na torcida do Chelsea, esta mais interessada em medalhas do que em geopolítica. Sem a rechonchuda carteira dele, talvez o Chelsea ainda estaria no sobe e desce, lutando humildemente por uma posição de meio de tabela. Ainda bem que a goleada sofrida na minha primeira vez como um Blue foi pequena para me fazer desistir do Chelsea…

 

Rodrigo, filho do jornalista Antonio Seidl, exibe o emblema do Chelsea em Stamford Bridge
Rodrigo, filho do jornalista Antonio Seidl, exibe o emblema do Chelsea em Stamford Bridge Arquivo Pessoal

COLUNA DE RODRIGO BUENO (14/09/2003, Folha)

“Se o sertão vai virar mar ninguém sabe, mas que o mar virou céu ninguém tem dúvida. O Chelsea foi rebatizado informalmente de Chelsky. A brincadeira na Europa em torno do tradicional time londrino pode ficar séria. Tudo isso por causa de uma autêntica revolução russa. O magnata Roman Abramovich assumiu o controle do clube inglês. Seu plano? Colocar a equipe imediatamente no mesmo nível do Manchester United e do Real Madrid. Só para começar. Crespo, Verón, Makelele, Geremi, Duff, Mutu, Johnson, Bridge, Cole... São até agora 157 milhões na compra de jogadores, quase 120 milhões a mais do que o homem do petróleo na Rússia pagou recentemente para ter a maioria das ações do Chelsea. A ambição não parou por aí. Nos últimos dias, Roman tirou o Beckham dos dirigentes ingleses do agora rival Manchester United. Peter Kenyon foi peça fundamental na ascensão dos Diabos Vermelhos no fim do século 20. A contratação do badalado executivo mostra que mais loucuras financeiras podem vir pela frente. Kenyon tratou, por exemplo, da contratação do zagueiro Ferdinand por mais de US$ 40 milhões. Mas quem é esse Roman? A biografia dele mostra dor (perdeu o pai com quatro anos e a mãe quando tinha só 18 meses) e dinheiro (aos 36 anos era, segundo a lista da Forbes, a 49ª pessoa mais rica do planeta). Passou pelo exército russo e concentrou seus negócios em Omsk (lembra do War?). Sua meteórica ascensão, óbvio, despertou muitas dúvidas. A partir de 1992, Roman passou a integrar o círculo do ex-presidente Boris Yeltsin. Enquanto a Rússia sofria grave crise econômica, jorrava cada vez mais grana para o empresário e político (virou governador em sua região). Para se divertir, comprou um time de hóquei. Quis se divertir um pouco mais e levou o Chelsea. Seu mais novo brinquedo está na Copa dos Campeões, que começa para valer na terça-feira. E os números mostram que não entrará para brincar. O Chelsky gastou 51,6% do total investido por clubes ingleses para a temporada. O esbanjador Real Madrid "só" ficou mesmo com Beckham por aquela pechincha (25 milhões agora e mais 10 milhões, talvez, nos próximos quatro anos). Enquanto o mundo todo tira o pé do acelerador, Roman pisa fundo. Se o time anglo-russo está gastando errado não tem problema. Há muito mais para gastar, e a mídia já despertou para o novo braço do magnata (terça tem Sparta x Chelsea na ESPN Brasil). O começo não mais que razoável no Campeonato Inglês não incomoda porque a equipe está sendo montada às pressas. Antes, as estrelas eram "apenas" Desailly, Petit, Hasselbaink, Babayaro... O técnico Claudio Ranieri soma quatro temporadas no Chelsea, mas de repente teve a sensação de ter trocado de clube tamanha foi a mudança recente. Alguns insucessos ou alguns caprichos de Roman podem fazer com que essa sensação se torne realidade. Não dá para dizer ainda se Roman e o céu têm limites. Sabe-se que o céu é tão azul quanto o mar e o Chelsea. E que o céu é maior.”

 

Material promocional do primeiro jogo do Chelsea visto por Antonio Seidl
Material promocional do primeiro jogo do Chelsea visto por Antonio Seidl Arquivo Pessoal

 

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Relato atual do maior torcedor do Chelsea no Brasil e coluna antiga sobre o Chelsky explicam os Blues

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Onde estão os sindicatos dos jogadores e o bom senso para parar o futebol no Brasil?

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Em meio à tristeza de uma guerra na Ucrânia, assistimos nos últimos dias diversas cenas de selvageria e barbárie no futebol brasileiro, com verdadeiros atentados contra jogadores. Uma “simples” bomba atirada contra o ônibus do Bahia, que quase cegou o goleiro Danilo Fernandes, deveria já ser um motivo suficiente para a categoria se unir para parar o futebol de alguma forma. Onde estão os sindicatos dos atletas para defender a classe quando ela é atacada de forma vil e covarde em Salvador, Recife, Curitiba, Porto Alegre e São Paulo, entre outras praças com menos visibilidade? Onde está a união e o bom senso que o Bom Senso (movimento dos atletas do país que durou apenas três anos) pregava? O futebol do nosso país está em guerra também!    

Torcedores estão invadindo os campos, até com faca, para trocar socos com os jogadores. Atacam ônibus do rival e do próprio time com artefatos capazes de matar mesmo. Tentativa de homicídio, até onde eu seu, é crime. Eu não preciso dizer aqui que esses terroristas que estão tomando conta do futebol deveriam ser presos e impedidos de frequentar estádios para sempre. Eu poderia falar aqui também que aprovo punições severas aos clubes que protegem de alguma forma esses vândalos, seja com multas, perda de mando, perda de pontos, eliminação de torneios, rebaixamento, suspensão de competições futuras etc. Mas meu foco aqui são os atletas mesmo, as maiores vítimas disso tudo. Eles vão ficar calados diante de tantos atos assustadores?

Os clubes têm responsabilidade total na proteção de seus funcionários, especialmente os que ficam nessa zona de frente da guerra que virou o futebol, os que vão a campo e estão mais expostos. As federações precisam zelar também pela segurança de suas competições e pelas estrelas principais do espetáculo. A imprensa, além da obrigação de pedir ainda mais paz no esporte, deve fazer seu trabalho de registrar e denunciar esses casos, cobrar das autoridades também medidas que acabem com o caos.

Mas e os jogadores? Dei uma olhada no site da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf) e vi que eles enviaram na sexta-feira um ofício ao governo federal e à CBF pedindo uma “solução de resgate” para os jogadores brasileiros na Ucrânia. Como sabemos, os atletas lá estão escapando da Ucrânia por conta própria, saindo em comboio com suas famílias para alguma fronteira no oeste do país. O atacante David Neres, por exemplo, saiu para se defender na Romênia. Viralizou o vídeo dele com uma mala caminhando para atravessar a fronteira, um jogador que frequenta a seleção brasileira virou um refugiado.

Cenas e histórias de drama de alguém que alcançou o sonhado futebol europeu, onde os sindicatos brasileiros de jogadores pouco podem agir. Não achei nada no site da Fenapaf sobre os atentados cometidos aqui no Brasil contra os seus atletas. Temos os sindicatos estaduais também e dei uma olhada no site da entidade que deveria defender os jogadores profissionais do Estado de São Paulo. Para a minha surpresa (ou não), Rinaldo Martorelli continua na presidência mesmo após tanto tempo e após tantos escândalos. Mais de 200 jogadores, em ação coletiva, pediram o afastamento de Martorelli, mas não foram atendidos. Mais uma vez, estão sozinhos nessa batalha. Não conseguem e não têm força nem mesmo para escolher seu líder sindical.

Jogador do São Paulo treinado por Alex (ex-líder do Bom Senso) segura torcedor que invadiu o gramado na semifinal da Copinha contra o Palmeiras
Jogador do São Paulo treinado por Alex (ex-líder do Bom Senso) segura torcedor que invadiu o gramado na semifinal da Copinha contra o Palmeiras Renato Gizzi/Photo Premium/Gazeta Press

Os jogadores de futebol ainda não entenderam exatamente o poder e os direitos que possuem. Atletas que não recebem salário em dia (algo que virou banal e “comum” no Brasil, assim como a violência) devem mesmo, em algum momento, denunciar os seus superiores caloteiros. Sete jogadores do Avaí não tiveram medo e acionaram o STJD denunciando o clube catarinense, que poderia ter seu acesso à Série A do Campeonato Brasileiro comprometido. Infelizmente, ações desse tipo são raridade no país. Normalmente, os atletas costumam tomar atitudes apenas de forma isolada, no final da carreira ou quando já estão desligados de um determinado clube com quem têm pendências financeiras vultosas.

Em outros países, inclusive aqui na América do Sul, vemos uma união e uma luta muito mais forte por parte dos atletas e dos sindicatos que os representam. Não tenho dúvida de que o futebol teria parado na Argentina e no Uruguai se acontecessem tantos ataques a atletas, em um curto espaço de tempo, como vimos no Brasil na semana passada. E a onda de violência aqui passa também por vários casos de intolerância, muitos episódios de racismo (que é crime), torcedor com símbolo nazista e por aí vai.

Sinceramente, o futebol no Brasil precisa parar. E não só para refletir. A única boa notícia do Gre-Nal é que não houve jogo após o atentado contra o ônibus gremista, lembrando que, de forma absurda, aconteceu a partida do Bahia na Copa do Nordeste após a bomba arremessada contra o ônibus do time. O futebol ficou parado um bom tempo por causa da pandemia, vimos muitos jogos sem torcida nos últimos dois anos, esperávamos que a volta do público aos estádios seria motivo de muita alegria. Só que não. Jogadores (e treinadores) são hostilizados, ofendidos e estão colocando suas vidas em risco até mesmo no início da temporada no Brasil, quando temos os Estaduais e jogos de menor importância. Se está assim agora, imagina o que nos espera quando chegarmos às decisões dos principais campeonatos?

Sei que já teve rebaixamento de time tradicional em Estadual neste ano, caso do Paraná no fim de semana. Mas quem foi rebaixado com aquela insana invasão a campo na Vila Capanema foi o futebol brasileiro, a sociedade, a civilização, a humanidade. Jogadores sendo acuados em seu ambiente de trabalho porque não alcançaram um resultado, como se derrotas e insucessos não fizessem parte do esporte. Veremos já nos próximos dias uma série de clássicos país afora (já marcaram data para o novo Gre-Nal, que nem deveria acontecer, na minha opinião). A chance de mais violência é considerável, pois aquela sensação de impunidade continua firme e forte no nosso país.

Passou da hora de o governo tomar medidas mais fortes para mudar o cenário atual do futebol brasileiro. Assim como defendo bastante o modelo inglês de calendário e de organização (a liga independente da CBF que um dia pode ser criada no país podia muito bem dar um Control C + Control V no regulamento da Premir League), não vejo mais outro caminho a não ser algum Relatório Taylor no Brasil. Nada menos do que uma verdadeira revolução na forma de ver e torcer, algo que mudou radicalmente a cara do futebol na Inglaterra. E quem mais devia brigar por essa mudança drástica de normas e comportamentos são os atletas.

E aí, jogadores? O grupo está unido mesmo ou não?

 

   

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Quem não tem mecenas ou patrocínio forte ou não virar SAF, será rebaixado no Brasil

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Estamos diante da maior revolução no futebol brasileiro neste século. As Sociedades Anônimas do Futebol (SAF) chegaram para mudar completamente o cenário dos últimos anos e décadas. Clubes importantes que perderam competitividade devem voltar a curto e médio prazo a brigar de novo por objetivos nobres. E times que ficarem parados no tempo, sobretudo sem um mecenas ou um patrocínio forte, serão rebaixados de alguma forma. Ou caindo mesmo de divisão ou perdendo o protagonismo de outrora.

Não tem segredo nem mistério: dinheiro faz muita diferença no futebol, assim como em toda a sociedade moderna. Quem fatura mais fica invariavelmente no topo. E recebe ainda mais dinheiro. É uma simples fórmula, um círculo vicioso. Demorou para o futebol brasileiro perceber esse movimento, pois, até por questões culturais e históricas, os clubes do país são pequenos quadros associativos nas mãos de muita gente que lucra com esse sistema arcaico, seja com ganhos políticos, financeiros ou por puro ego.

Virar empresa não é certeza de sucesso, até porque empresas quebram mesmo. E os primeiros grandes clubes do país que foram negociados (Botafogo, Cruzeiro e Vasco) só chegaram a esse ponto por estarem tecnicamente quebrados mesmo. Foi a forma que encontraram para sair da crise (ou para crescer na crise, uma velha dica econômica). Exemplos temos de todo tipo no futebol europeu, mas aqui no Brasil já existem também os cases de sucesso, como o Bragantino, rapidamente finalista da Copa Sul-Americana após ser adquirido pela Red Bull, e o Cuiabá, que virou em pouco tempo um clube de Série A e de Sul-Americana.

Athletic Bilbao, Barcelona, Osasuna e Real Madrid foram os únicos clubes na Espanha que não se transformaram em SA. O Bilbao é um orgulho de sua região, continua aceitando apenas jogadores de origem basca e luta, basicamente, por algumas copas e para manter o tabu de nunca ter sido rebaixado. O Osasuna tem um dos mais baixos faturamentos da elite espanhola e, por isso, tem oscilado entre primeira e segunda divisões nos últimos oito anos. Os gigantes Barcelona e Real Madrid vivem muito mais do nome e da força que adquiriram ao longo da história do que dos seus sócios. Foi-se o tempo em que o Barça não colocava patrocinador em seu uniforme. Foi-se o tempo em que o time catalão era mesmo “mais que um clube”, pois tem lidado com algumas administrações nocivas, danosas e nada apropriadas.

Haverá sim no Brasil, como no mundo, protestos pontuais e alguns mais fortes pela venda de instituições seculares a terceiros que muitas vezes não possuem ligação nenhuma com os clubes. Isso acontece até mesmo em times que não adotaram ainda o modelo SAF. A empresária Leila Pereira, que era patrocinadora e virou presidente do Palmeiras, ajudou o clube a ganhar títulos importantes nos últimos anos, mas está sendo bombardeada agora simplesmente por contratar assessor corintiano, por exemplo. Muita gente vai perder poder e espaço dentro dos clubes com essa terceirização que já virou moda, não será nada fácil para alguns largar o osso.    

O choque de realidade está apenas no começo. Quem achou que construiria uma hegemonia no país está percebendo que a coisa na prática não é assim tão fácil como se imaginava. O "Malvadão" Flamengo, batendo na casa de R$ 1 bilhão de faturamento anual, tem sido superado em torneios por Atlético-MG e Palmeiras, dois clubes que não viraram SAF mas que possuem grandes parceiros. Os clubes do Nordeste, de uma forma geral, melhoraram muito em termos administrativos e estão mais competitivos. Talvez o Fortaleza, que terminou no G4 do Brasileiro à frente de um Corinthians que investiu em vários reforços em 2021, seja o grande exemplo desse crescimento. Esse mesmo Corinthians está tomando chapéu agora do Botafogo na contratação de técnico estrangeiro, no caso o português Luís Castro. Sinal dos tempos!


Empresário americano John Textor comprou 90% das ações da SAF do Botafogo e já revoluciona o futebol brasileiro
Empresário americano John Textor comprou 90% das ações da SAF do Botafogo e já revoluciona o futebol brasileiro Vitor Silva/Botafogo F.R.

 

John Textor, o empresário norte-americano que adquiriu o Botafogo, já tem experiência no futebol europeu com o Crystal Palace e iniciou uma revolução no Glorioso. Suas ideias e suas ações, incluindo a demissão do técnico que levou o clube para a Série A mesmo com um elenco modesto e o cancelamento do contrato de patrocinadores, causam impacto não só no tradicional clube carioca, mas no futebol brasileiro como um todo. É uma outra mentalidade, uma outra filosofia, um outro tipo de gerenciamento que pode sim encurtar a diferença entre o Botafogo e o Flamengo (que aumentou sensivelmente nos últimos anos).  Não haveria outra forma de o clube da Estrela Solitária ser realmente competitivo neste momento da história. Cavani aliás não seria uma estrela solitária como Abreu, seria só parte de um projeto bem maior. 

Vimos um abismo recente entre Athletico e Coritiba, algo que pode ser revertido em breve com a SAF do Coxa. Assistimos uma ponta de esperança agora para a Portuguesa, seja pela sua boa campanha na segunda divisão do Paulista, seja pela possibilidade de também ser adquirida por algum grupo forte. América-MG e Chapecoense também confiam nesse modelo para subirem de patamar no futebol brasileiro. Não será nada incomum se, em um curto espaço de tempo, a Série A do Brasileiro ter maioria de times que são empresas. A tendência é essa mesmo, e pior para aqueles que ficarem presos demais a velhas tradições.

Não é de hoje que o futebol é um grande negócio. Clubes bem administrados, além de ganharem títulos, também geram renda, faturam em meio ao sucesso esportivo. O embate entre razão e paixão no futebol brasileiro será cada vez maior. A camisa cada vez vencerá menos jogos. Não haverá como ser competitivo sem uma boa estrutura e um bom caixa. Na verdade, quase nunca foi possível isso, mesmo quando o Campeonato Brasileiro ainda não era no sistema de pontos corridos. A Bundesliga pode até virar mata-mata agora, mas o Bayern de Munique continuará sendo o grande favorito para ser campeão alemão, pois é o mais rico.

Já fiz um post aqui, quando o Ronaldo comprou o Cruzeiro, alertando para as vantagens e os perigos de clubes tradicionais se venderem, ainda mais de forma desesperada. O tema é amplo e complexo, hoje só quero festejar mesmo esta nova era do futebol nacional. O Brasil deverá atrair mais investimento e atenção dos estrangeiros, caminhamos para uma liga mais forte e mais nivelada por cima (quem sabe independente da CBF). Títulos continentais e disputa de Mundiais já são rotina para os clubes brasileiros, justamente por razões econômicas na América do Sul. Quem não melhorar a administração esportiva, vai ficar com dor de cotovelo acusando o rival de ganhar apenas porque tem mais dinheiro. Gostem ou não do Chelsea, do Manchester City ou do Paris Saint-Germain, é o que temos para os dias atuais.

Dizem que time grande não cai. Eu digo que time pobre cai. E que time grande que não se modernizar vai cair sim! Cada vez mais e cada vez mais fundo.  

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Bayern e City são barbadas na Champions, e o único duelo sem favorito é PSG x Real

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Após mais um choque de realidade com o Mundial de Clubes, rara chance de medirmos o nível dos clubes europeus com os dos outros continentes, chegou a hora do mata-mata mais atrativo do futebol mundial. Mas as oitavas de final da Champions League apresentam também as suas barbadas, assim como o torneio da Fifa (que pelo décimo ano seguido mostra um campeão do Velho Continente). Bayern de Munique e Manchester City estão em outro patamar até mesmo em relação ao Chelsea, proclamado agora campeão do mundo, e são muito favoritos contra Salzburg e Sporting, respectivamente. Exceção feita ao esperado duelo entre o estelar Paris Saint-Germain e o tradicional Real Madrid, todos os confrontos mostram uma considerável vantagem para um dos lados.        

Como já é tradição neste blog, vamos dar uma passada em cada um dos confrontos, destacar algumas estatísticas e características dos times e dar os percentuais de chance de classificação.

 PARIS SAINT-GERMAIN (50%) X (50%) REAL MADRID

 Com Neymar de volta ao grupo, o PSG parte para cima com todos os seus principais jogadores ofensivos. Uma baixa é justamente a de Sergio Ramos, lendário defensor que teve sua carreira bastante ligada ao Real Madrid. Líder disparado do Campeonato Francês, o time do questionado Mauricio Pochettino tenta um título inédito para coroar o projeto bilionário de seu dono: Nasser Al-Khelaifi.

Líder do Campeonato Espanhol, o maior vencedor de títulos da Europa e do mundo ganhou solidez sob o comando de Carlo Ancelotti. A equipe merengue é a que menos faz faltas na Champions dentre os 16 classificados (47 infrações). Vinícius Júnior, líder em dribles na Champions League (41 fintas), evoluiu muito nas mãos do experiente técnico italiano e tem se entendido bem com Benzema, que gera dúvida para o duelo por estar se recuperando de contusão. Casemiro e Mendy estão pendurados e ficarão de fora do jogo seguinte caso recebam cartão amarelo em Paris.

Se Sergio Ramos não vai enfrentar desta vez seu querido Real (Ander Herrera também está fora com lesão muscular), o goleiro Navas terá a chance de fazer valer a lei do ex. A pressão estará muito em cima de Messi, maior jogador da história do Barcelona que chegou a Paris para tirar o time da fila, e em Mbappé, que deverá mesmo ser jogador do Real na próxima temporada.

 

Mbappé está hoje no PSG de Messi, mas pode reforçar este ano o Real, seu adversário na Champions
Mbappé está hoje no PSG de Messi, mas pode reforçar este ano o Real, seu adversário na Champions Sylvain Lefevre/Getty Images


SPORTING (20%) X (80%) MANCHESTER CITY

Os dois times não sabem o que é empate na competição. O City venceu quatro partidas e perdeu duas. Já o time português ganhou três jogos e foi batido em três oportunidades.

O time de Guardiola, líder com folga da Premier League, é o que melhor passa a bola na Champions League, apresentando um índice de acerto de 90,20%. Atual vice-campeão europeu, o City tenta um título inédito e que não é vencido pelo seu badalado treinador há mais de uma década. Mahrez é até aqui o jogador que mais finaliza na competição (24 chutes a gol). De Bruyne voltou a atuar em alto nível, e assim o Manchester City obteve 14 vitórias e 1 empate nos últimos 15 jogos do forte Campeonato Inglês.  

O Sporting, que vem de um empate tumultuado em Portugal com o líder Porto, é o time que teve menos ataques na fase de grupos (190). Pedro Gonçalves, artilheiro da equipe na disputa com quatro gols, é um dos principais destaques. João Palhinha é o jogador que mais comete faltas na disputa: foram 20 no total. E ele é um dos jogadores pendurados no time lisboeta. Se tomar um cartão amarelo, estará fora da partida de volta na Inglaterra.

Se o Sporting tem o seu time completo para o jogo de ida, Guardiola não pode contar com Grealish, Gabriel Jesus e Walker.

 

INTER DE MILÃO (40%) X (60%) LIVERPOOL

Os Reds conseguiram pontuação máxima em seu grupo e contam com a volta de Salah e Mané após a Copa da África. Seu tridente ofensivo pode ter ainda Diogo Jota, que vive bom momento. O time de Jürgen Klopp é o que mais quilômetros percorreu na fase de grupos (177,90 km somando todos os jogadores).

Inter de Milão, que perdeu peças importantes depois do scudetto da temporada passada, vem brigando com o rival Milan e o Napoli pela ponta do Campeonato Italiano. A equipe de Simone Inzaghi é a que menos desarma no torneio dentre os classificados (195 vezes), mas é a que mais finalizou (117 vezes). A campeã italiana tem problemas para o jogo: Barella, Gosens e Correa estão fora. Bastoni é dúvida para a partida de ida. Enquanto isso, o Liverpool vem completo.

O time de Milão, que amargou derrota recente para o Milan na Serie A, joga o mata-mata da Champions pela primeira vez em uma década. Ainda tem um jogo a menos que o rival rubro-negro, mas não está no seu melhor momento na temporada. Neste século, a Inter tem tido problemas na Champions com times ingleses, foi inclusive eliminada pelo Liverpool na temporada 2007/2008.

 

SALZBURG (10%) X (90%) BAYERN

O time de Munique, que não terá o lesionado Neuer nas oitavas de final (Ulreich joga), venceu todos os jogos na fase de grupos. Conta com os gols de Lewandowski, The Best, o que o ajudou a ser o melhor ataque da disputa (22 tentos). Líder disparado da Bundesliga, surge como grande favorito para o confronto. O Bayern tem saldo de 19 gols no torneio, o maior de todos.

O Salzburg é o time que menos correu na fase de grupos dentre os classificados (125,20 km somando todos os jogadores). Ironicamente, os dois atletas que mais correm na competição jogam no time: Aaronson (78,2 km) e Seiwald (69,1 km). O clube austríaco também é o que mais cometeu faltas na disputa (101). Outro índice negativo do Salzburg está no aproveitamento de passes, o pior dentre os 16 classificados (76,50%). O treinador mais jovem nesta fase é do Salzburg, pois o alemão Matthias Jaissle tem apenas 33 anos.

O Bayern tem uma lista grande de desfalques além do Neuer: Alphonso Davies, Goretzka, Musiala e Stanisic. Só que o outro lado também tem uma série de baixas para a partida de ida: Junuzovic, Okoh, Koita, Sesko e o versátil brasileiro Bernardo.

 

VILLARREAL (40%) X (60%) JUVENTUS

O Submarino Amarelo conta com a boa fase do holandês Danjuma, que tem quatro gols na competição. Unai Emery, técnico do Villarreal, tem fama de copero, é um expert na Europa League e tenta levar o clube espanhol a mais uma final continental. O campeão da Liga Europa tem no departamento médico o artilheiro Gerard Moreno, Coquelin e Peña.

A Juventus vem em um processo de recuperação na Serie A após um início ruim de temporada. Perdeu Chiesa por conta de uma grave lesão, mas se reforçou bem com o artilheiro Vlahovic e Zakaria. O veterano e líder Chiellini, com problemas na panturrilha, é uma possível baixa para a partida de ida.

Se o Villarreal segurou como mandante o Real Madrid em um 0 a 0 no Espanhol na última rodada, a Velha Senhora foi buscar um empate em 1 a 1 fora de casa com a Atalanta com um gol de Danilo no último minuto praticamente. A Juve se segurou no G4 do Italiano, quanto o Submarino Amarelo é o sétimo na Liga.

 

CHELSEA (70%) X (30%) LILLE

Os Blues foram o time com maior número de ataques na fase de grupos da Champions (430). Líder geral em termos de posse de bola na competição (62,5% em média por jogo). O atual campeão mundial, que está praticamente fora da briga pelo título da Premier League, é finalista da Copa da Liga da Inglaterra.

O Lille é a equipe com mais desarmes na competição (282). Quem se destaca na lista de ladrões de bola na disputa é Reinildo Mandava, mas ele foi negociado com o Atlético de Madrid. Dos atletas que continuam na disputa, Camara é quem mais sofre faltas na Champions: 17. 

Thomas Tuchel, atual melhor técnico do mundo, poderá contar com praticamente todo o seu elenco, exceção feita a Chilwell. Já  Lille precisa recuperar vários jogadores, como Renato Sanches, Lihadji e Pied. O artilheiro Burak Yilmaz está pendurado.

 

ATLÉTICO (40%) X (60%) MANCHESTER UNITED

A equipe de Madri está fora do G4 da Liga e vive um momento de turbulência. Já na fase de grupos da Champions, sofreu três derrotas e suou bastante para se classificar. Só o Atlético e o Benfica avançaram com saldo de gols negativo. Com o ídolo Simeone podendo sair no final da temporada do comando do clube, os colchoneros foram os que menos tiveram posse de bola na fase de grupos dentre os times que se classificaram (43,8%).

No lado inglês, também há muita desconfiança. Os Red Devils também estão fora do G4 de sua liga nacional. Solskjaer foi demitido, mas o time não engrena com o interino Ralf Rangnick. Cristiano Ronaldo mostra descontentamento com  desempenho do time e já experimentou o banco de reservas em alguns jogos. Greenwood, acusado de estupro, foi afastado pelo clube, que acabou eliminado precocemente da Copa da Inglaterra. Bruno Fernandes lidera em assistências a Champions: 6 passes para gol.

Simeone vê Giménez e Carrasco no departamento médico e teme pelos pendurados Luis Suárez, João Félix e Kondogbia. Cavani, Matic e Bailly são as dúvidas no time vermelho de Manchester.

 

BENFICA (30%) X (70%) AJAX

Além de ter 100% de aproveitamento na competição, o Gigante de Amsterdã apresentou o futebol mais vistoso da fase de grupos. O Ajax passou com saldo de 15 gols, o segundo maior dentre os classificados. E o artilheiro da disputa é do Ajax: o marfinense Haller já balançou as redes 10 vezes. Quem tem brilhado bastante também no time é o brasileiro Antony, que já computa cinco assistências na disputa e que serve a seleção principal agora.

Dirigido por Jorge Jesus na fase de grupos, o Benfica foi o time que menos finalizou dentre os que ainda seguem na disputa (57 vezes). O ex-treinador flamenguista foi demitido, e o interino Nélson Veríssimo tenta melhorar a equipe, praticamente fora da briga pelo título em Portugal. Everton Cebolinha, curiosamente, voltou a jogar bem após a saída do veterano treinador que o levou para Lisboa. O Benfica, que avançou de fase com saldo de gols negativo, deixou o Barcelona para trás e o mandou para a Liga Europa. Dos goleiros que ainda continuam na disputa da Champions, Vlachodimos é quem mais defesas faz: foram 22.

Os dois times têm importantes jogadores pendurados: Grimaldo, João Mário, Otamendi, Rafa Silva e Weigl pelo lado português, e Álvarez e Timber no Ajax, o líder destacado da Eredivisie.

 

 

 

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Reino Unido desiste da Copa de 2030, anima o Mercosul e mostra desdém inglês com Mundial

Rodrigo Bueno
Rodrigo Bueno

Muita gente imaginava que a próxima Copa do Mundo na Europa seria no Reino Unido e na Irlanda, mas isso não deve ocorrer mais. Nesta segunda-feira, oficialmente os britânicos desistiram de sua candidatura para o Mundial de 2030, o que aumenta bastante a chance de esse torneio tão simbólico acontecer na América do Sul. Será a edição que marca o centenário da disputa, e sabemos que tudo começou no Uruguai. Há muito tempo alimentam a expectativa de que a Copa de 2030 comece em Montevidéu, e existe uma forte candidatura conjunta de Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai para receber o principal torneio do futebol.      

Agora, a grande rival da candidatura sul-americana é a que une Espanha e Portugal. Como a Copa deste ano será na Ásia e a de 2026 acontecerá na América do Norte, esses dois continentes estão fora da disputa. O Marrocos tem interesse também em realizar o Mundial de 2030, possivelmente em parceria com outros países do Norte da África, como Argélia, Egito e Tunísia. Com essa concorrência menos endinheirada, ficou ainda mais realista a Copa na América do Sul daqui a oito anos. A Fifa vai definir em seu Congresso em 2024 a sede da competição.   

Os britânicos fizeram um estudo sobre o impacto econômico e político de um grande torneio nas nobres ilhas e entenderam que organizar a Eurocopa vale tanto quanto receber a Copa, e o torneio continental ainda custaria bem menos ao governo. Julian Knight, que comanda o Departamento de Cultura, Mídia e Esportes do Reino Unido, classificou a candidatura britânica para a Copa do Mundo como um “projeto gigante, vaidoso e caro”. “É inaceitável que £ 2,8 milhões em dinheiro do contribuinte tenham sido desperdiçados em um sonho que estava claramente condenado desde o início. O futebol do Reino Unido precisa resolver sua reputação em casa antes que possamos ir atrás do maior torneio.”

O foco de Escócia, Irlanda, Irlanda do Norte, Inglaterra e País de Gales fica todo voltado agora para a Euro-2028. Um comunicado da candidatura do Reino Unido e da Irlanda coloca a Eurocopa praticamente no mesmo patamar do Mundial. “Hospedar uma Euro oferece um retorno semelhante de investimento, com o torneio da Uefa tendo um custo muito menor e o potencial de lucro sendo recebido mais cedo. Seria uma honra e um privilégio ser sede coletivamente da Euro-2028 e receber toda a Europa. Também seria uma oportunidade maravilhosa para demonstrar o verdadeiro impacto de receber um torneio de classe mundial, promovendo mudanças positivas e deixando um legado duradouro em nossas comunidades”, diz o comunicado dos britânicos.

Luis Suárez e Messi, embaixadores da candidatura para a centenária Copa do Mundo de 2030 na América do Sul
Luis Suárez e Messi, embaixadores da candidatura para a centenária Copa do Mundo de 2030 na América do Sul Reprodução - Twitter

A edição centenária da Olimpíada, por razões históricas, deveria ser realizada em Atenas em 1996, mas fatores econômicos levaram os Jogos para Atlanta, nos Estados Unidos. Atenas, berço olímpico, ficou com a edição de 2004 da disputa. O Uruguai organizou e venceu a primeira edição da Copa do Mundo, em 1930, após ganhar as medalhas de ouro no futebol em 1924 e 1928. Hoje, com 32 seleções, seria quase impossível o Uruguai receber sozinho um Mundial, por isso houve uma candidatura conjunta inicialmente com a Argentina (sede em 1978) e, depois, também com o Paraguai e o Chile (anfitrião em 1962).    

Se tantos países e continentes mostram grande empolgação com Mundiais, o mesmo não pode ser dito do Reino Unido. A Inglaterra, pátria-mãe do futebol, só foi disputar a Copa do Mundo em 1950, duas décadas depois de sua criação. A relação entre a Fifa, entidade máxima da modalidade, e os britânicos, que criaram e ainda regulamentam o popular esporte, quase sempre é conflituosa. Desde a ascensão de João Havelange à presidência da Fifa nos anos 70, houve uma política de expansão do futebol pelo planeta e um certo isolamento dos britânicos, que inclusive deixaram de fazer parte da União Europeia na última década.  

Gianni Infantino, o atual presidente da Fifa, segue a política expansionista de Havelange e Blatter, tudo em busca de dinheiro e votos para permanecer no poder. Ele tenta manter boas relações com todas as confederações e busca implementar a Copa bienal. Também ofereceu o plano de um Mundial com 48 seleções, estimulando ainda mais as sedes conjuntas dos grandes torneios (apoiou a última Eurocopa com diversas sedes no continente).

Os ingleses, por sua parte, continuam mostrando muito apreço pelo seu próprio calendário, bastante puxado, pouco ligando para o Mundial de Clubes, por exemplo. Mesmo a Europa League não goza de muito prestígio com os times da terra da rainha, que se orgulham da Premier League, a liga nacional mais badalada do planeta. A Copa da Inglaterra (FA Cup) é o torneio mais antigo do futebol e também fica na mais alta conta pela sua tradição. Diante desse cenário e da disputa histórica com a Fifa, ainda mais após tantos casos de corrupção na entidade, os britânicos mantêm um certo distanciamento das competições globais no futebol.   

A notícia da desistência do Reino Unido e da Irlanda de ser sede da Copa de 2030 foi recebida com muita animação no Uruguai, claro, mas em vários outros países há a perspectiva agora de receber o Mundial antes dos pomposos britânicos. Além da candidatura conjunta sul-americana já citada e da parceria entre Espanha e Portugal, as nações que estudam receber a principal competição do futebol em breve incluem Arábia Saudita, Austrália, Bahrein, Bulgária, Camarões, Colômbia, Coreia do Sul, Coreia do Norte, China, Egito, Emirados Árabes, Equador, Grécia, Indonésia, Israel, Itália, Japão, Peru, Romênia e Sérvia.

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